domingo
Espírito Tanto...
Prisioneiro da liberdade
de escolha,
a sina do poeta é errar...
para não errar.
Tudo acertado,
poema e poeta,
enfim juntos,
e para sempre separados,
sob olhares diversos
novamente erram.
Agora, sem escolha...
Erram os poemas,
à procura de frestas
que os conduzam
à vida eterna...
Filhos pródigos,
que ao poeta errante
não voltarão como antes...
ju rigoni (2003)
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O Desatar das Exceções
Para chegar a esta vida
precisei vencer uma grande corrida…
Penetrar um óvulo,
sair de um mundo,
entrar e adaptar-me a outro,
dividindo-me,
multiplicando-me, -
até estar pronta para abrir os olhos
a uma primeira luz.
Quando respirei pela primeira vez
já havia cometido muitos atos políticos…
E ao fazê-lo, mergulhei
neste grande repartido
que é o mundo,
para a partir de mim mesma
pelo menos tentar
tomar partido do outro…
Nem bem fui concebida,
e já podia perceber que não se vive,
não se existe, sozinho.
Respirar pela primeira vez
não foi mais difícil que repartir-me, -
que continuar respirando…
Política, sim.
Não a ignoro.
Não jogo ao lixo minha capacidade de pensar,
meu direito e dever de agir para transformar.
Procuro não confundir política
com politicagem,
ou politicalha!
Política está em quase tudo que faço
e que sinto.
Qual ser humano
é capaz de estar diante da fome,
da guerra, da miséria,
das catástrofes que aniquilam pessoas,
e de tudo que as condena à inexpressão, -
desgraças resultantes do interesse
ou do descaso dos poderosos -,
sem reagir pelo menos
em pensamento?!…
Política!
Ela está em minhas escolhas, -
em meus prazeres e ódios;
na música que aprecio;
em todas as manifestações artísticas,
e no meu olhar sobre elas;
ela está no que desejo àqueles
que ainda estão a poucos passos
da tal linha de partida,
mas que um dia, igualmente,
venceram aquela corrida.
Ela vai à minha mesa,
deita-se à minha cama;
passeia nas linhas e entrelinhas
do que leio e do que escrevo;
está na minha decisão
de sentar-me diante da tela
da tv ou do pc,
E procuro não esquecer:
sou eu quem os liga e desliga,-
sou eu quem dou e retiro poder.
Política…
Afogada num mar de ações
que multiplicam suas definições,
alteram-lhe o estado,
naufraga, sem qualquer socorro,
seu mais humano e belo significado.
ju rigoni (2002)
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O Fim do Começo...
Leu poemas demais...
Dizem que enlouqueceu,
cercado de palavras
de panças anchas...
Entre o presente ensebado
e as cinzas do passado,
um futuro inimaginável -
escritos encaixotados,
cavalgando outros confins...
O herói ainda mora dentro;
monta e desmonta o sonho acordado.
Mas do cavalo, de tão magro,
só se consegue ver o rabo...
ju rigoni (Anos 80)
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sábado
Janela
.
As montanhas, lá...
Não saem do seu lugar...
Não há o que possa movê-las;
nem a fé...
Quem não está dentro,
está à porta, pronto para entrar, -
proteger-se,
aguardar...
Ainda que não seja possível
uma mudança de ventos...
ju rigoni (2004)
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As montanhas, lá...
Não saem do seu lugar...
Não há o que possa movê-las;
nem a fé...
Quem não está dentro,
está à porta, pronto para entrar, -
proteger-se,
aguardar...
Ainda que não seja possível
uma mudança de ventos...
ju rigoni (2004)
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domingo
Outra História...
E ele ecoou poético, bonito.
Mágoas de um rio, passando
com o tempo silente.
Sempre à margem...
Transmuda-se o grito. Sem asas,
murmúrio em estações vorazes;
multiplicam-se as suas leituras...
Palavras plenas de mistério,
hoje, a vibrar em outras vozes...
Grito que cala, censura,
nem ao menos resvala
a verdade...
E por incrível que pareça,
tortura ou alívio,
ainda estamos todos vivos...
ju rigoni (1977)
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Em Campanha
.
Minado, o texto
está prestes a explodir
sob um tanque de guerras perdidas...
Malditos e blindados significados
in significantes...
No front da mente,
palavras entrincheiradas...
Caneta... engatilhada.
Um movimento...
Um único movimento...
serão reveladas...
E um exército de eus avançará
certo de haver vencido mais uma batalha...
Quiçá, a guerra...
Neurose;
poemas não conhecem paz...
Sob miras diversas
um poema é sempre mais...
Muito mais...
Avança, e avança,
haja ou não inimigos...
ju rigoni (1998)
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Minado, o texto
está prestes a explodir
sob um tanque de guerras perdidas...
Malditos e blindados significados
in significantes...
No front da mente,
palavras entrincheiradas...
Caneta... engatilhada.
Um movimento...
Um único movimento...
serão reveladas...
E um exército de eus avançará
certo de haver vencido mais uma batalha...
Quiçá, a guerra...
Neurose;
poemas não conhecem paz...
Sob miras diversas
um poema é sempre mais...
Muito mais...
Avança, e avança,
haja ou não inimigos...
ju rigoni (1998)
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Invernal
Ele me olha com olhos de interrogação, embora tranquilos, e eu sem saber o que fazer disfarço a resposta que tanto aguarda… Passo ao largo, deixando ao abandono a verdade. Assim, penso preservá-lo, resguardá-lo um pouco mais…
Apesar do meu egoísmo, ele sabe. Eu sei que, lá no fundo, ele sabe.
Embora a certeza, tento sorrir, fingir, animá-lo o mais que posso.
- Amanhã você já deverá ir para o quarto; quer que eu lhe traga alguma coisa especial? O que você quer? É só dizer!
Mas seu olhar não engana… É de minutos, horas… um dia? Jamais uma semana! E continuo tentando…
- Acho que amanhã vai fazer sol…
Ele não tem medo da ilustre desconhecida. Age como sempre… Como se estivesse pronto para uma viagem, ou para lançar-se em uma aventura qualquer.
Em má hora sou tomada pela inveja…
Um beijo, um até amanhã… O sorriso com que se despede não deixa uma única pista. E retiramo-nos, eu e a angústia que penso camuflada…
Logo será amanhã. Não há como mudar isto…
Volto para casa caminhando. Tenho que mexer o corpo. Preciso fazer alguma coisa, ainda que essa coisa não resolva porra nenhuma, não mude uma única vírgula do porvir…
O vento gelado penetra minha roupa, adormece meu corpo, encolhe minha mente… Sensação de impotência. Estremeço, e aperto o passo… Daria tudo por uma bebida, – qualquer droga -, capaz de subverter-me a alma; devolver-me a ilusão de vida…
Enquanto caminho, lembro-me de tanta coisa… Mas não consigo deixar de pensar que o tempo anda mais depressa do que eu. Não há o que eu possa fazer… O amanhã vem aí…
Merda!
ju rigoni (1988)
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Toque Estelar
Deitei meu corpo
sobre a espreguiçadeira do jardim
para ver melhor as estrelas...
e perdi-me no olhar o céu
de uma noite clara de verão...
Olhei muito, olhei tanto...
Que estranha sensação!
Flutuar num espaço sem fim...
As estrelas nem pareciam aquelas...
Quase podia tocá-las...
De perto, nem eram tão belas!
Tanta luz...
Mal conseguia vê-las!
Voltei a mim
e nesse fundo segundo
meu olhar foi ao chão.
Ergui-me da espreguiçadeira
e fui dormir em minha cama...
Sonhar, ou ter pesadelos,
para ver estrelas
como sempre as vi...
De longe ou de perto,
acendendo e apagando,
acendendo e apagando...
no breu de um tresloucado céu
deitado sobre o travesseiro...
ju rigoni (2001)
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Varanda
Dia gostoso...
Delícia de um sol morninho,
que o frescor da brisa
sopra da pele....
Delicadamente,
movem-se as folhas, -
as secas ondulam no chão;
as verdes dançam
nos galhos das árvores
coalhados de passarinhos...
O mar, hoje manso,
fala baixinho...
Sob o céu de um azul azulzinho,
carinhosamente alisa a areia...
Balançam na rede minha preguiça,
e o desejo de muitos
e muitos dias de paz...
Como esse.
ju rigoni (2000)
imagem obtida via google aqui
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Mirando a Miragem
Se eu contasse o que me vai por dentro
exilar-me-iam numa ilha paradisíaca...
Distante do que há de mais banal neste mundo, -
tudo que é cruel, doloroso, triste...
Um lugar povoado de almas em calma,
com vista para um mar de amor, alegria, beleza;
aquilo que embora não pareça
está na essência do que eu digo.
Significados significantes... Inversos...
Certo é que onde eu for
vou comigo...
ju rigoni (Anos 70)
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