domingo
Véu
Encanta-o,...
esse véu que adivinha em seus olhos.
Céu presumido, -
distante...
Em quarto
de lua minguante,
desnuda a maçã
cujo centro,
extirpado,
guardava a entrada
do paraíso...
Sentirá o buquê,
mas não sorverá
o vinho do fruto proibido, -
que entorpece,
inebria, -
esclarece...
Dá a conhecer
a hora sublime
do prazer,
o momento
sagrado
do ser...
ju rigoni (1999)
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De graus...
Acordei
pensando ouvir vozes...
Levantei-me da cama
e, ainda sonolenta,
fui até à escada...
Olhei-a...
Palavras desciam
e subiam em tal velocidade...
Aqui e ali, escorregavam...
Um perigo!
Degraus têm quinas
e, ao que tudo indicava,
também as tinham
as palavras que, tontas,
comigo tentavam acordar...
Mas, não!
Nada fazia sentido...
Ainda era manhã, -
e... quanta luz!...
Bêbada de sono,
de ressaca,
olhei para baixo,
e, de repente, caí
em mim...
Voltei para a cama.
Fui deitar novamente a cabeça,
e minhas palavras,
ao travesseiro, -
tentar resgatar o sonho
onde as vi primeiro.
Outra vez, adormeci.
À tarde, ao despertar,
percebi que eram outras as palavras
que de mim se levantavam...
Que pesadelo!
Das primeiras, só havia um rastro...
Uma aqui, outra ali...
Perdi a senha do sonho.
Desisti! Não me adiantaria...
Palavras, só as encontraria à noite,
bem acordadas,
na minha insônia...
ju rigoni (2010)
foto obtida via google.
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Conto do Vigário
Um dia,
fui vencedor;
fui espermatozóide.
Mas levei uma corrida da vida...
ju rigoni (2000)
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Um Chamado...
Amo o que em mim estranho,
o que só eu vejo e sei...
Amo o que não se reflete
à tona, o que está mais fundo,
para além...
O que ninguém alcança
marolando,
espiralando com os dedos
o espelho das minhas águas...
Tocá-las multiplica-me
em imagens distorcidas;
não desvenda meus segredos
ou explica
o que só encontra explicação
nos estilhaços do vidro-aço
da adivinhação...
ju rigoni (1997)
foto via google. Caso conheça o autor,
por favor, avise-me para que eu possa
inserir o devido crédito.
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Farol
.
Quem há de saber
com certeza
a natureza do cio
que excita a palavra do poeta?...
Quem há de saber
se um poeta é anjo,
deus,
ou aquele cujo nome
ouço, leio,
mas não escrevo
ou pronuncio?...
Há poesia
onde menos se espera...
Pois se até o mais vil,
o mais crápula
dos indivíduos,
consegue ser poeta!...
Poesia é sangue
correndo em veias
que não escolheu...
Ah, que pena dos poemas...
ju rigoni (1998)
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Fundo de Mim II, Dormentes, Medo de Avião, Fundo de Mim (no wp)
Quem há de saber
com certeza
a natureza do cio
que excita a palavra do poeta?...
Quem há de saber
se um poeta é anjo,
deus,
ou aquele cujo nome
ouço, leio,
mas não escrevo
ou pronuncio?...
Há poesia
onde menos se espera...
Pois se até o mais vil,
o mais crápula
dos indivíduos,
consegue ser poeta!...
Poesia é sangue
correndo em veias
que não escolheu...
Ah, que pena dos poemas...
ju rigoni (1998)
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Mães...
Espasmos de prazer
no ritmo febril dos sentidos,
e o encontro é marcado
neste mundo perdido...
Corre-se!...
Corre-se tanto para não perdê-la...
fecundar-lhe o óvulo, -
desdobrar-se em células,
ganhar corpo...
navegando o morno e manso
mar do seu ventre.
Mães...
Solitárias estrelas,
a anos-luz de distância
umas das outras,
e, ainda assim, tão próximas...
Filhas,... e agora,...
mães...
Ora ilhas vulcânicas
ora trilhas no deserto...
Milagres de amor
sempre ao alcance.
Meninas sem hora,
Senhoras meninas...
Mães...
Templos sagrados
que guardam mais
que segredos à "luz" revelados...
Mães...
Por amor,
assumirão serem elas
as donas dos danos,
dos dramas,
e de todas as tramas
dos seus meninos...
Meninas sem hora,
senhoras meninas...
Mães...
Magia divina,
de suas penas
constroem, ofertam asas,
e orientam ao voo seguro;
criadoras e criaturas,
únicas e capazes
de transformar esperanças
em certeza de uma nova era.
Mães...
De seus úteros,
há de vir à luz
a paz que o mundo espera...
ju rigoni (Anos 70)
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Reflexão
Vontade
Ela é aquela esquina
em rua de muitas esquinas
sem qualquer sinalização.
Cuidado! Preste atenção!
Evite indagar
sobre a sua direção.
Apressados,
muitos passam por ela
sem perceber o sinal…
amarelo.
Alguns,
uns raros,
conseguem dobrá-la.
Tantos vivem dela
sem sequer notá-la!…
Mas como
e por que
ignorar os ilimitados limites
de uma esquina
plena de referências
que reverenciam
marcas, digitais, -
identidade?…
De um lado e de outro…
o outro lado.
E ela… bem ao meio…
a dividir, a provocar,
a inspirar delírios,
devaneios, -
acidentados desejos.
Ponto de desencontros,
a sina dessa esquina
é desdenhar
a curva do possível,
enfadonho ritual de passagem
a dividir o atropelado ir-e-vir
dos sonhos.
ju rigoni (2002)
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Posse
Dou-me a quem - como
e quando - quiser,
porque não sou sua...
Nem sua
nem de ninguém...
Nem dos momentos
que aqui dentro
me deixam de fora...
Você não pode me tomar,
e eu não posso lhe dar
o que não é meu...
Não, não me sei,
mas me entendo
como ninguém...
ju rigoni (Anos 70)
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Reflexão
No Bilhete
Amigo,
volta a ser feliz.
Não fica assim, tão tocado...
Tudo neste mundo será pó
ao vento forte,
ou à brisa leve, soprado...
Pega emprestado as asas
de um passarinho,
desliga o motor enguiçado,
e voa sobre esse ar pesado
com mais delicadeza.
Apesar da ironia,
dos momentos de aspereza,
as estrelas ainda estão lá.
Olha para cima
e brilharão no céu dos seus olhos...
É grande o seu universo,
visita um outro planeta;
dá uma chance ao pensamento...
Liberta as palavras
que moram aí dentro...
Esse, sim, é você.
Sem ódios,
sem ressentimentos...
Está bem!, sem refinamentos...
E daí?...
Não há desmerecimento
na sua poesia...
Feita com o mesmo amor
com que o homem simples,
cultiva a terra.
Poesia é quinta
de primeira,
de segunda
a segunda-feira...
Meu querido amigo
e poeta,
é sexto
o sentido
que sopra ao seu ouvido...
E só ao seu ouvido...
Críticas maldosas
são espinhos...
inúteis,
diante da beleza
da rosa...
ju rigoni (1999)
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Versões
Realidade editada...
Ficção em reticências.
Grãos de dúvida...
grãos de dívida?...
Ligue a tevê;
assista ao jornal...
Desligue-se
do mundo real.
ju rigoni (2001)
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