domingo

Pressão Convergente




Não! Não há de colher a flor, -
arriscar-se, e uma vez mais
ferir-se em seus espinhos...

Coração apertadinho, -
repuxado pela cicatriz do fim
do momento em que foi feliz...

Certeza sem pulso,
acelerado,
bate/bate/bate, -
defesa ao invés de ataque...

Adeus, tentativa e erro!
Nunca mais um desafio...

ju rigoni (1998)

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Hiatus



Bruxa e fada;
caldeirão e canetinha de condão...
No feitiço da noite
o desmaio da madrugada
a recobrar os sentidos da aurora -
poção, encanto, -
magia...
Encontro da luz
com a palavra...

ju rigoni (2003)


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Balela

.
Vivi muitos amanhãs.
Todos me vieram
com a mesma cara...

Se todo amanhã
um dia foi hoje
e todo hoje
há de ser ontem

nada mais espero...

ju rigoni (1989)

Tomada

.
Nariz espremido
contra o vidro da janela;
olhos parados,
pregados na luz dos azuis
da linha do horizonte...
Imune ao chamado
belo e silente,
sucumbia à tempestade
que armava-se em sua mente...

ju rigoni (2001)


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?...



Procuro em todos os cantos...
Na cozinha, na sala,
no quarto, - debaixo da cama,
dentro dos armários,
no antigo amarrado de cartas -,
em meio aos livros preferidos
e aos tantos escritos
que se espalham pela casa...

Olho demoradamente ao espelho,
bato no peito,
estapeio o rosto,
belisco-me,
e olho de novo...
Nada!

Respiro profundamente
e volto a me perguntar:
Onde?...
Onde você está?

ju rigoni (2004)


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Lição Primeira




Não. Não havia crianças
nas casas vizinhas.

Cuidava de ouvir,
falar,
brincar,
com amigos que só ela via.

Todos eles tinham um nome
que não se sabe de onde surgia.
Todos lhe contavam histórias
que ela reproduzia.

Nem pai nem mãe, -
ninguém compreendia...
Como podia ser tão feliz....
De onde vinha tanta alegria?

Nunca souberam entender
a linguagem dos passarinhos!....

Quem pode ser bem-te-vi
tendo olhos de quero-quero?...

O tempo passando...
A menina a crescer crescendo...
Aprendendo a ser...

Sendo,
nunca esteve sozinha.

ju rigoni (1999)


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Na ressaca

.
Não se conhece um indivíduo
pela sua poesia,
ainda que a mais bela.
Talvez sejam uvas pisadas
em busca do buquê que inebria, -
de um líquido que entorpeça!...

Ou, quem sabe, vinagre...
temperando a carne
que, ainda,
em dúvidas se consome...

ju rigoni (1997)


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Maldição



Dias longos, loongos...
Os ponteiros do relógio não saem do lugar...
Lá fora, nubla, chove, faz sol;
o tempo passa sem passar...

A espera imobiliza,
não deixa pensar, -
fazer outra coisa
além de esperar...

Impossível dormir... Sonhar...
Ser livre!

Não há remédio
que não seja esperar
quando o que se espera
é que a espera finde...

ju rigoni (1998)


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Tresnoitando...



Sentidos aguçados, corpo dolorido,
partilho com a noite meus segredos…
Tudo fala aos meus sentidos…
Sapos, rãs, corujas, grilos… E o mar…
Impossível deixar de ouvi-lo!

No ir e vir das ondas…
o ritmo descompassado,
o chiar da areia, – percussão…
no arrastado som da mágoa,
traduzido em grãos, água…
e uns dedos longos e magros
a dançar, insones, sobre o teclado…

Mergulho na beleza… no mistério
da ruidosa calmaria da noite.
O silêncio silêncio
não é da natureza da natureza…

A noite avança…
e esse silêncio eloquente e lindo
desperta em mim outros sons,
outras vozes,
outras noites não dormidas,
queridas… vorazes…

Quando mais tarde, – tudo mais quieto -,
d esperto, o galo canta enciumado,
mais claro e forte o som que vem das ondas
espanta intrusos de última hora…

Só a aurora abranda-lhe a voz rouca,
agora estranhos mantras de ninar,
a distrair a luz que já vem vindo
pra revelar, da emoção, as cores,
e acordar o que estava dormindo…

ju rigoni (Barra de Maricá/1999)


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, Dormentes, Medo de Avião.

Tim-Tim


Sacar a rolha;
aspirar o bouquet possível...
De olho no futuro,
saborear no presente
alguma pretérita delícia...

Adivinhar
sem avinagrar-se.

(Ainda que as taças
contenham o mesmo vinho,
são diversos os paladares...)

ju rigoni (2000)

Aos amigos e visitantes, saúde e muitas alegrias em 2011.

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