domingo
Lição Primeira
Não. Não havia crianças
nas casas vizinhas.
Cuidava de ouvir,
falar,
brincar,
com amigos que só ela via.
Todos eles tinham um nome
que não se sabe de onde surgia.
Todos lhe contavam histórias
que ela reproduzia.
Nem pai nem mãe, -
ninguém compreendia...
Como podia ser tão feliz....
De onde vinha tanta alegria?
Nunca souberam entender
a linguagem dos passarinhos!....
Quem pode ser bem-te-vi
tendo olhos de quero-quero?...
O tempo passando...
A menina a crescer crescendo...
Aprendendo a ser...
Sendo,
nunca esteve sozinha.
ju rigoni (1999)
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Na ressaca
.
Não se conhece um indivíduo
pela sua poesia,
ainda que a mais bela.
Talvez sejam uvas pisadas
em busca do buquê que inebria, -
de um líquido que entorpeça!...
Ou, quem sabe, vinagre...
temperando a carne
que, ainda,
em dúvidas se consome...
ju rigoni (1997)
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Não se conhece um indivíduo
pela sua poesia,
ainda que a mais bela.
Talvez sejam uvas pisadas
em busca do buquê que inebria, -
de um líquido que entorpeça!...
Ou, quem sabe, vinagre...
temperando a carne
que, ainda,
em dúvidas se consome...
ju rigoni (1997)
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Maldição
Dias longos, loongos...
Os ponteiros do relógio não saem do lugar...
Lá fora, nubla, chove, faz sol;
o tempo passa sem passar...
A espera imobiliza,
não deixa pensar, -
fazer outra coisa
além de esperar...
Impossível dormir... Sonhar...
Ser livre!
Não há remédio
que não seja esperar
quando o que se espera
é que a espera finde...
ju rigoni (1998)
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Tresnoitando...
Sentidos aguçados, corpo dolorido,
partilho com a noite meus segredos…
Tudo fala aos meus sentidos…
Sapos, rãs, corujas, grilos… E o mar…
Impossível deixar de ouvi-lo!
No ir e vir das ondas…
o ritmo descompassado,
o chiar da areia, – percussão…
no arrastado som da mágoa,
traduzido em grãos, água…
e uns dedos longos e magros
a dançar, insones, sobre o teclado…
Mergulho na beleza… no mistério
da ruidosa calmaria da noite.
O silêncio silêncio
não é da natureza da natureza…
A noite avança…
e esse silêncio eloquente e lindo
desperta em mim outros sons,
outras vozes,
outras noites não dormidas,
queridas… vorazes…
Quando mais tarde, – tudo mais quieto -,
d esperto, o galo canta enciumado,
mais claro e forte o som que vem das ondas
espanta intrusos de última hora…
Só a aurora abranda-lhe a voz rouca,
agora estranhos mantras de ninar,
a distrair a luz que já vem vindo
pra revelar, da emoção, as cores,
e acordar o que estava dormindo…
ju rigoni (Barra de Maricá/1999)
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Tim-Tim
Sacar a rolha;
aspirar o bouquet possível...
De olho no futuro,
saborear no presente
alguma pretérita delícia...
Adivinhar
sem avinagrar-se.
(Ainda que as taças
contenham o mesmo vinho,
são diversos os paladares...)
ju rigoni (2000)
Aos amigos e visitantes, saúde e muitas alegrias em 2011.
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sábado
Uma Resposta
Procuro no que eu digo
abrigo para o meu sentimento.
Meu tempo pode não ser o seu...
Mas o que é o tempo
quando tenho diante de mim
a folha em branco, a caneta,
e esta irresistível sensação de poder?...
- Silêncio!
Quero ouvir o que você não ousa dizer.
Ouvir-lhe o coração.
Preciso olhar em seus olhos
e encontrar o que desejo:
a sua alma.
Quero-a substantivo,
concreta e minha,
muito minha,
só minha.
Preciso tocá-la,
apossar-me dela,
servi-la com adjetivos, metáforas...
Transformá-la em palavras.
Porque sei o que você busca.
Meus sentimentos são quartos desarrumados
que, às vezes, encontro organizados
não na minha
mas na palavra do outro.
Se isso é poesia
não escrevo poemas,
mas, sim,...
sou poeta.
ju rigoni (2002)
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domingo
Quando?!...
Quando a gente ama
arde no fogo, crepita,
deixa secar o mar interior;
sem dó, ouve o desafinar
da música que nos habita.
Quando a gente ama
bebe palavras em saliva quente;
nem se dá conta das estrelas cadentes
do céu da boca.
Quando a gente ama
a gente enlouquece...
A gente só ama, ama, ama...
O leite a ferver e entornar
dos corpos ardentes
sobre a cama...
Quando a gente ama
roça perigos em gozo...
Apossa-se do que não deve...
Na vício da felicidade
corpo e alma experimentam
um gosto de eternidade...
Quando a gente ama
ama o que o outro ama na gente;
não é quando a gente ama
que a gente se ama
completamente?...
Quando a gente ama
trama em nós cegos
que estreitam o peito
entre o prazer e o receio
de que havendo fim
não haja meio de sobreviver...
...
E quando o amor é findo,
de repente, a gente se lembra
que não existiu nesse tempo...
Tira do limbo a própria trama...
dá à luz a dádiva da dúvida...
E rememora, e sofre,
e quer morrer, - matar o que mata! -,
e tem certeza...
Não será capaz de responder
à inquietante pergunta...
Quando a gente ama?...
ju rigoni (Anos 70)
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De Espantos...
E a palavra surge
vestida de noite;
o manto do dia à frente.
No verso, o tema...
Aurora e tarde
encontram-se
no poema...
ju rigoni (1988)
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À Vela...
O poeta não está nestes versos.
Saiu. Foi beber o mar...
Viver e morrer outras vidas...
Eterno incompreendido,
curtido em sal e areia,
remenda e remenda a rede, e...
nem talentos nem sustento...
Não é de prata a sua sede,
nem de ouro a sua fome!...
Seu barco nunca teve nome,
e minúsculas são as letras
que marcam sua passagem
em calmaria ou tormenta.
Solitária...
é a pequena grande viagem
para dentro...
Povoada de silêncios
que, solidários, gritam...
ju rigoni (1997)
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Dora
.
Eu a vi.
Ela me veio no seu passinho quieto
com o mesmo sorriso
e o abraço terno plenos em amor e proteção.
Afagou-me os cabelos...
Ah, tão bom senti-la de novo tão perto!...
- Minha linda, meu amor! –
a voz que pensei nunca mais ouvir
nesta vida...
Ela estava aqui. Eu juro! Ela estava.
Na fenda entre a saudade e a memória
que embola a linha do tempo.
Se estou louca,
enlouqueci da melhor loucura;
a que nos mantêm vivos.
Ela estava bem aqui. Eu juro!
ju rigoni (2005 - para minha inesquecível vó Dora)
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Eu a vi.
Ela me veio no seu passinho quieto
com o mesmo sorriso
e o abraço terno plenos em amor e proteção.
Afagou-me os cabelos...
Ah, tão bom senti-la de novo tão perto!...
- Minha linda, meu amor! –
a voz que pensei nunca mais ouvir
nesta vida...
Ela estava aqui. Eu juro! Ela estava.
Na fenda entre a saudade e a memória
que embola a linha do tempo.
Se estou louca,
enlouqueci da melhor loucura;
a que nos mantêm vivos.
Ela estava bem aqui. Eu juro!
ju rigoni (2005 - para minha inesquecível vó Dora)
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