domingo
Mirando a Miragem
Se eu contasse o que me vai por dentro
exilar-me-iam numa ilha paradisíaca...
Distante do que há de mais banal neste mundo, -
tudo que é cruel, doloroso, triste...
Um lugar povoado de almas em calma,
com vista para um mar de amor, alegria, beleza;
aquilo que embora não pareça
está na essência do que eu digo.
Significados significantes... Inversos...
Certo é que onde eu for
vou comigo...
ju rigoni (Anos 70)
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De Ouvido
Ah, esse moço antigo
e devasso
que se entrega ao abraço
e se deixa tocar
por uns dedos travessos...
Curvas sensuais, sinuosas,...
veias sempre tesas, -
cordas que libertam
sem fugir à pegada.
Ah, que delícia,
esse esse moço antigo
e lustroso,
de boca generosa,
escancarada...
Acordo, acorde,
que encanta,
alegra, entristece,
nina, provoca,
acorda, celebra,...
afina
corações e mentes...
ju rigoni (2005)
imagem obtida via google
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Doação
Ele é feito de sal diluído
em águas...
Eis porque cobriu-lhe
com seus oceanos...
Ao fazê-lo,
revelou a cor do seu céu, -
os seus melhores planos...
Dividiu-se em fases,
deu-lhe seu espaço, -
para além da sua lua,...
das suas estrelas...
E pela primeira vez
enfrentou
certo acender
e apagar-se...
Deu-lhe quase tudo...
até o que não poderia...
porque não sabia
se era
ou não era seu...
Mas, deu!...
E ninguém,...
ninguém!, entendeu...
ju rigoni (1998)
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sábado
Partindo...
Talvez eu volte...
Talvez, não.
Talvez eu faça de conta
que não tenho coração...
É o que pensam de mim!
Não quero,
mas preciso ir...
Para não me perder por aqui;
não entrar em armários,
para ocultar contrários
que contrariam....
Deixo parte de mim;
porque vou-me inteiro...
ju rigoni 1997
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Susto
Eu teria que me desdobrar,
para dobrar-me
como ele esperava...
Reta?
Fui paralela...
Todavia, triangulei
por todos os círculos...
Geométricamente,
perdi os sentidos...
Dei-os,... dei-me.
Em meio ao caos,
psicografei-me.
Oh, meu deus,
- eu nunca prestei!...
ju rigoni (1998)
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Uma Saída
Entrei na tal rua,
procurei o número da casa...
Encontrei!
Mas, diante da porta,
hesitei...
Atravessando-me,
quase a atravessei...
Melhor não bater...
Não, não quero mais saber!
Desapareço,
levando os mesmos fantasmas
que pensei ter deixado
na infância...
Portas,
abertas ou fechadas,
têm mais chaves
do que se imagina...
Ou me trancam,
ou escancaram-me...
ju rigoni (2000)
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domingo
Música!
A caneta voleia,
saltita, -
dança...
Bailarina que domina
o palco de papel.
Eis um belo pas de deux...
Segura pelos dedos,
enfeita cenários,
cria novas luzes,
conta o infinito...
Em ponta e beleza,
dança...
E não apenas dança...
Doa seu sangue,
de rara nobreza,
até a última gota.
ju rigoni (1988)
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Pretéritos
Guardados assim,
na gaveta
da escrivaninha antiga,
entre traças e cupins,
textos, fotografias, -
uns sobre os outros,
amarelados, rendados,
semi-destruídos...
Guardados, não!...
Escondidos de mim...
no velho porão.
Tirá-los de lá?
Mexer nas feridas?...
Tentar curá-las?!
Soprar-lhes ainda alguma dita?...
Não sei...
Por qual razão os esqueci?
Por que abanonei ali
parte da minha vida?
Por quais estranhos caminhos
fui reconduzida a um passado,
que de tão passado
a pragas serve de alimento?...
Por que só agora
a memória
o devolve a mim?...
ju rigoni (sem registro de data)
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Véu
Encanta-o,...
esse véu que adivinha em seus olhos.
Céu presumido, -
distante...
Em quarto
de lua minguante,
desnuda a maçã
cujo centro,
extirpado,
guardava a entrada
do paraíso...
Sentirá o buquê,
mas não sorverá
o vinho do fruto proibido, -
que entorpece,
inebria, -
esclarece...
Dá a conhecer
a hora sublime
do prazer,
o momento
sagrado
do ser...
ju rigoni (1999)
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De graus...
Acordei
pensando ouvir vozes...
Levantei-me da cama
e, ainda sonolenta,
fui até à escada...
Olhei-a...
Palavras desciam
e subiam em tal velocidade...
Aqui e ali, escorregavam...
Um perigo!
Degraus têm quinas
e, ao que tudo indicava,
também as tinham
as palavras que, tontas,
comigo tentavam acordar...
Mas, não!
Nada fazia sentido...
Ainda era manhã, -
e... quanta luz!...
Bêbada de sono,
de ressaca,
olhei para baixo,
e, de repente, caí
em mim...
Voltei para a cama.
Fui deitar novamente a cabeça,
e minhas palavras,
ao travesseiro, -
tentar resgatar o sonho
onde as vi primeiro.
Outra vez, adormeci.
À tarde, ao despertar,
percebi que eram outras as palavras
que de mim se levantavam...
Que pesadelo!
Das primeiras, só havia um rastro...
Uma aqui, outra ali...
Perdi a senha do sonho.
Desisti! Não me adiantaria...
Palavras, só as encontraria à noite,
bem acordadas,
na minha insônia...
ju rigoni (2010)
foto obtida via google.
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