sábado

Susto



Eu teria que me desdobrar,
para dobrar-me
como ele esperava...

Reta?
Fui paralela...
Todavia, triangulei
por todos os círculos...

Geométricamente,
perdi os sentidos...
Dei-os,... dei-me.
Em meio ao caos,
psicografei-me.

Oh, meu deus,
- eu nunca prestei!...

ju rigoni (1998)


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Uma Saída



Entrei na tal rua,
procurei o número da casa...

Encontrei!

Mas, diante da porta,
hesitei...
Atravessando-me,
quase a atravessei...

Melhor não bater...
Não, não quero mais saber!

Desapareço,
levando os mesmos fantasmas
que pensei ter deixado
na infância...

Portas,
abertas ou fechadas,
têm mais chaves
do que se imagina...

Ou me trancam,
ou escancaram-me...

ju rigoni (2000)


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domingo

Música!



A caneta voleia,
saltita, -
dança...
Bailarina que domina
o palco de papel.

Eis um belo pas de deux...
Segura pelos dedos,
enfeita cenários,
cria novas luzes,
conta o infinito...

Em ponta e beleza,
dança...
E não apenas dança...
Doa seu sangue,
de rara nobreza,
até a última gota.

ju rigoni (1988)


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Pretéritos



Guardados assim,
na gaveta
da escrivaninha antiga,
entre traças e cupins,
textos, fotografias, -
uns sobre os outros,
amarelados, rendados,
semi-destruídos...
Guardados, não!...
Escondidos de mim...
no velho porão.

Tirá-los de lá?
Mexer nas feridas?...
Tentar curá-las?!
Soprar-lhes ainda alguma dita?...
Não sei...

Por qual razão os esqueci?
Por que abanonei ali
parte da minha vida?

Por quais estranhos caminhos
fui reconduzida a um passado,
que de tão passado
a pragas serve de alimento?...

Por que só agora
a memória
o devolve a mim?...

ju rigoni (sem registro de data)


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Véu




Encanta-o,...
esse véu que adivinha em seus olhos.
Céu presumido, -
distante...

Em quarto
de lua minguante,
desnuda a maçã
cujo centro,
extirpado,
guardava a entrada
do paraíso...

Sentirá o buquê,
mas não sorverá
o vinho do fruto proibido, -
que entorpece,
inebria, -
esclarece...
Dá a conhecer
a hora sublime
do prazer,
o momento
sagrado
do ser...

ju rigoni (1999)


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De graus...



Acordei
pensando ouvir vozes...
Levantei-me da cama
e, ainda sonolenta,
fui até à escada...
Olhei-a...
Palavras desciam
e subiam em tal velocidade...
Aqui e ali, escorregavam...
Um perigo!
Degraus têm quinas
e, ao que tudo indicava,
também as tinham
as palavras que, tontas,
comigo tentavam acordar...

Mas, não!
Nada fazia sentido...

Ainda era manhã, -
e... quanta luz!...
Bêbada de sono,
de ressaca,
olhei para baixo,
e, de repente, caí
em mim...

Voltei para a cama.
Fui deitar novamente a cabeça,
e minhas palavras,
ao travesseiro, -
tentar resgatar o sonho
onde as vi primeiro.

Outra vez, adormeci.

À tarde, ao despertar,
percebi que eram outras as palavras
que de mim se levantavam...
Que pesadelo!

Das primeiras, só havia um rastro...
Uma aqui, outra ali...
Perdi a senha do sonho.

Desisti! Não me adiantaria...
Palavras, só as encontraria à noite,
bem acordadas,
na minha insônia...

ju rigoni (2010)

foto obtida via google.


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Conto do Vigário


Um dia,

fui vencedor;
fui espermatozóide.

Mas levei uma corrida da vida...

ju rigoni (2000)




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Um Chamado...



Amo o que em mim estranho,
o que só eu vejo e sei...
Amo o que não se reflete
à tona, o que está mais fundo,
para além...

O que ninguém alcança
marolando,
espiralando com os dedos
o espelho das minhas águas...
Tocá-las multiplica-me
em imagens distorcidas;
não desvenda meus segredos
ou explica
o que só encontra explicação
nos estilhaços do vidro-aço
da adivinhação...

ju rigoni (1997)

foto via google. Caso conheça o autor,
por favor, avise-me para que eu possa
inserir o devido crédito.


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Farol

.
Quem há de saber
com certeza
a natureza do cio
que excita a palavra do poeta?...
Quem há de saber
se um poeta é anjo,
deus,
ou aquele cujo nome
ouço, leio,
mas não escrevo
ou pronuncio?...

Há poesia
onde menos se espera...
Pois se até o mais vil,
o mais crápula
dos indivíduos,
consegue ser poeta!...

Poesia é sangue
correndo em veias
que não escolheu...
Ah, que pena dos poemas...

ju rigoni (1998)


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Mães...



Espasmos de prazer
no ritmo febril dos sentidos,
e o encontro é marcado
neste mundo perdido...

Corre-se!...
Corre-se tanto para não perdê-la...
fecundar-lhe o óvulo, -
desdobrar-se em células,
ganhar corpo...
navegando o morno e manso
mar do seu ventre.

Mães...

Solitárias estrelas,
a anos-luz de distância
umas das outras,
e, ainda assim, tão próximas...

Filhas,... e agora,...
mães...

Ora ilhas vulcânicas
ora trilhas no deserto...
Milagres de amor
sempre ao alcance.

Meninas sem hora,
Senhoras meninas...

Mães...

Templos sagrados
que guardam mais
que segredos à "luz" revelados...

Mães...

Por amor,
assumirão serem elas
as donas dos danos,
dos dramas,
e de todas as tramas
dos seus meninos...

Meninas sem hora,
senhoras meninas...

Mães...

Magia divina,
de suas penas
constroem, ofertam asas,
e orientam ao voo seguro;
criadoras e criaturas,
únicas e capazes
de transformar esperanças
em certeza de uma nova era.

Mães...

De seus úteros,
há de vir à luz
a paz que o mundo espera...

ju rigoni (Anos 70)


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