domingo

Um Chamado...



Amo o que em mim estranho,
o que só eu vejo e sei...
Amo o que não se reflete
à tona, o que está mais fundo,
para além...

O que ninguém alcança
marolando,
espiralando com os dedos
o espelho das minhas águas...
Tocá-las multiplica-me
em imagens distorcidas;
não desvenda meus segredos
ou explica
o que só encontra explicação
nos estilhaços do vidro-aço
da adivinhação...

ju rigoni (1997)

foto via google. Caso conheça o autor,
por favor, avise-me para que eu possa
inserir o devido crédito.


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Farol

.
Quem há de saber
com certeza
a natureza do cio
que excita a palavra do poeta?...
Quem há de saber
se um poeta é anjo,
deus,
ou aquele cujo nome
ouço, leio,
mas não escrevo
ou pronuncio?...

Há poesia
onde menos se espera...
Pois se até o mais vil,
o mais crápula
dos indivíduos,
consegue ser poeta!...

Poesia é sangue
correndo em veias
que não escolheu...
Ah, que pena dos poemas...

ju rigoni (1998)


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Mães...



Espasmos de prazer
no ritmo febril dos sentidos,
e o encontro é marcado
neste mundo perdido...

Corre-se!...
Corre-se tanto para não perdê-la...
fecundar-lhe o óvulo, -
desdobrar-se em células,
ganhar corpo...
navegando o morno e manso
mar do seu ventre.

Mães...

Solitárias estrelas,
a anos-luz de distância
umas das outras,
e, ainda assim, tão próximas...

Filhas,... e agora,...
mães...

Ora ilhas vulcânicas
ora trilhas no deserto...
Milagres de amor
sempre ao alcance.

Meninas sem hora,
Senhoras meninas...

Mães...

Templos sagrados
que guardam mais
que segredos à "luz" revelados...

Mães...

Por amor,
assumirão serem elas
as donas dos danos,
dos dramas,
e de todas as tramas
dos seus meninos...

Meninas sem hora,
senhoras meninas...

Mães...

Magia divina,
de suas penas
constroem, ofertam asas,
e orientam ao voo seguro;
criadoras e criaturas,
únicas e capazes
de transformar esperanças
em certeza de uma nova era.

Mães...

De seus úteros,
há de vir à luz
a paz que o mundo espera...

ju rigoni (Anos 70)


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Vontade


Ela é aquela esquina
em rua de muitas esquinas
sem qualquer sinalização.

Cuidado! Preste atenção!

Evite indagar
sobre a sua direção.
Apressados,
muitos passam por ela
sem perceber o sinal…
amarelo.

Alguns,
uns raros,
conseguem dobrá-la.
Tantos vivem dela
sem sequer notá-la!…

Mas como
e por que
ignorar os ilimitados limites
de uma esquina
plena de referências
que reverenciam
marcas, digitais, -
identidade?…

De um lado e de outro…
o outro lado.
E ela… bem ao meio…
a dividir, a provocar,
a inspirar delírios,
devaneios, -
acidentados desejos.

Ponto de desencontros,
a sina dessa esquina
é desdenhar
a curva do possível,
enfadonho ritual de passagem
a dividir o atropelado ir-e-vir
dos sonhos.

ju rigoni (2002)

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Posse



Dou-me a quem - como
e quando - quiser,
porque não sou sua...

Nem sua
nem de ninguém...

Nem dos momentos
que aqui dentro
me deixam de fora...

Você não pode me tomar,
e eu não posso lhe dar
o que não é meu...

Não, não me sei,
mas me entendo
como ninguém...

ju rigoni (Anos 70)


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No Bilhete



Amigo,
volta a ser feliz.
Não fica assim, tão tocado...
Tudo neste mundo será pó
ao vento forte,
ou à brisa leve, soprado...

Pega emprestado as asas
de um passarinho,
desliga o motor enguiçado,
e voa sobre esse ar pesado
com mais delicadeza.

Apesar da ironia,
dos momentos de aspereza,
as estrelas ainda estão lá.
Olha para cima
e brilharão no céu dos seus olhos...

É grande o seu universo,
visita um outro planeta;
dá uma chance ao pensamento...
Liberta as palavras
que moram aí dentro...

Esse, sim, é você.
Sem ódios,
sem ressentimentos...

Está bem!, sem refinamentos...
E daí?...

Não há desmerecimento
na sua poesia...
Feita com o mesmo amor
com que o homem simples,
cultiva a terra.

Poesia é quinta
de primeira,
de segunda
a segunda-feira...

Meu querido amigo
e poeta,
é sexto
o sentido
que sopra ao seu ouvido...

E só ao seu ouvido...

Críticas maldosas
são espinhos...
inúteis,
diante da beleza
da rosa...

ju rigoni (1999)


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Versões



Realidade editada...
Ficção em reticências.

Grãos de dúvida...
grãos de dívida?...

Ligue a tevê;
assista ao jornal...
Desligue-se
do mundo real.

ju rigoni (2001)


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Front



Que não se prepare o amanhã
como quem blinda um presente
que se envia a soldados
nas frentes de batalha.

Batatas!
Ao vencedor
e ao perdedor,...
as batatas...

Cruas, fritas, a dorê, em purê,...
estão sempre quentes
as disputadas batatas...

Muito quentes.
Infernais...

Que a sanha de vencer
não lance ao esquecimento
a senha do sonho.
Não mais...

ju rigoni (1998)


Foto obtida via google.


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A Penas...



Poesia não tem hora...
Nem dia!
Todo dia
é dia de poesia.

Corpo, mente...
Devoção.

Poesia é d'eus,
é milagre,
é mistério.
Poesia é o eterno
da vida...

ju rigoni (1999)


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Nem tanto...



Conheço bem sua história...
Seus defeitos, suas qualidades,
seus amores, seus medos,
seus dissabores...

Sei o que gosta de calçar,
de vestir, de comer, de beber...
E que verde
é a sua cor favorita.

Conheço seu pai, sua mãe,
sua filha,
sua neta, seus sobrinhos,
toda a sua família.

Acredito que saiba
quem são
seus amigos...

Conheço seus escritores,
seus poetas,
seus compositores, -
seus artistas preferidos.

Talvez
eu seja a pessoa
que mais sabe
da sua vida...

E ainda assim,...
nada sei.

Mas, admito:
a mulher que vejo
ao espelho
é bem parecida
comigo...

ju rigoni (2002)


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