domingo

Mães...



Espasmos de prazer
no ritmo febril dos sentidos,
e o encontro é marcado
neste mundo perdido...

Corre-se!...
Corre-se tanto para não perdê-la...
fecundar-lhe o óvulo, -
desdobrar-se em células,
ganhar corpo...
navegando o morno e manso
mar do seu ventre.

Mães...

Solitárias estrelas,
a anos-luz de distância
umas das outras,
e, ainda assim, tão próximas...

Filhas,... e agora,...
mães...

Ora ilhas vulcânicas
ora trilhas no deserto...
Milagres de amor
sempre ao alcance.

Meninas sem hora,
Senhoras meninas...

Mães...

Templos sagrados
que guardam mais
que segredos à "luz" revelados...

Mães...

Por amor,
assumirão serem elas
as donas dos danos,
dos dramas,
e de todas as tramas
dos seus meninos...

Meninas sem hora,
senhoras meninas...

Mães...

Magia divina,
de suas penas
constroem, ofertam asas,
e orientam ao voo seguro;
criadoras e criaturas,
únicas e capazes
de transformar esperanças
em certeza de uma nova era.

Mães...

De seus úteros,
há de vir à luz
a paz que o mundo espera...

ju rigoni (Anos 70)


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Vontade


Ela é aquela esquina
em rua de muitas esquinas
sem qualquer sinalização.

Cuidado! Preste atenção!

Evite indagar
sobre a sua direção.
Apressados,
muitos passam por ela
sem perceber o sinal…
amarelo.

Alguns,
uns raros,
conseguem dobrá-la.
Tantos vivem dela
sem sequer notá-la!…

Mas como
e por que
ignorar os ilimitados limites
de uma esquina
plena de referências
que reverenciam
marcas, digitais, -
identidade?…

De um lado e de outro…
o outro lado.
E ela… bem ao meio…
a dividir, a provocar,
a inspirar delírios,
devaneios, -
acidentados desejos.

Ponto de desencontros,
a sina dessa esquina
é desdenhar
a curva do possível,
enfadonho ritual de passagem
a dividir o atropelado ir-e-vir
dos sonhos.

ju rigoni (2002)

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Posse



Dou-me a quem - como
e quando - quiser,
porque não sou sua...

Nem sua
nem de ninguém...

Nem dos momentos
que aqui dentro
me deixam de fora...

Você não pode me tomar,
e eu não posso lhe dar
o que não é meu...

Não, não me sei,
mas me entendo
como ninguém...

ju rigoni (Anos 70)


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No Bilhete



Amigo,
volta a ser feliz.
Não fica assim, tão tocado...
Tudo neste mundo será pó
ao vento forte,
ou à brisa leve, soprado...

Pega emprestado as asas
de um passarinho,
desliga o motor enguiçado,
e voa sobre esse ar pesado
com mais delicadeza.

Apesar da ironia,
dos momentos de aspereza,
as estrelas ainda estão lá.
Olha para cima
e brilharão no céu dos seus olhos...

É grande o seu universo,
visita um outro planeta;
dá uma chance ao pensamento...
Liberta as palavras
que moram aí dentro...

Esse, sim, é você.
Sem ódios,
sem ressentimentos...

Está bem!, sem refinamentos...
E daí?...

Não há desmerecimento
na sua poesia...
Feita com o mesmo amor
com que o homem simples,
cultiva a terra.

Poesia é quinta
de primeira,
de segunda
a segunda-feira...

Meu querido amigo
e poeta,
é sexto
o sentido
que sopra ao seu ouvido...

E só ao seu ouvido...

Críticas maldosas
são espinhos...
inúteis,
diante da beleza
da rosa...

ju rigoni (1999)


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Versões



Realidade editada...
Ficção em reticências.

Grãos de dúvida...
grãos de dívida?...

Ligue a tevê;
assista ao jornal...
Desligue-se
do mundo real.

ju rigoni (2001)


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Front



Que não se prepare o amanhã
como quem blinda um presente
que se envia a soldados
nas frentes de batalha.

Batatas!
Ao vencedor
e ao perdedor,...
as batatas...

Cruas, fritas, a dorê, em purê,...
estão sempre quentes
as disputadas batatas...

Muito quentes.
Infernais...

Que a sanha de vencer
não lance ao esquecimento
a senha do sonho.
Não mais...

ju rigoni (1998)


Foto obtida via google.


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A Penas...



Poesia não tem hora...
Nem dia!
Todo dia
é dia de poesia.

Corpo, mente...
Devoção.

Poesia é d'eus,
é milagre,
é mistério.
Poesia é o eterno
da vida...

ju rigoni (1999)


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Nem tanto...



Conheço bem sua história...
Seus defeitos, suas qualidades,
seus amores, seus medos,
seus dissabores...

Sei o que gosta de calçar,
de vestir, de comer, de beber...
E que verde
é a sua cor favorita.

Conheço seu pai, sua mãe,
sua filha,
sua neta, seus sobrinhos,
toda a sua família.

Acredito que saiba
quem são
seus amigos...

Conheço seus escritores,
seus poetas,
seus compositores, -
seus artistas preferidos.

Talvez
eu seja a pessoa
que mais sabe
da sua vida...

E ainda assim,...
nada sei.

Mas, admito:
a mulher que vejo
ao espelho
é bem parecida
comigo...

ju rigoni (2002)


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Entre as Vistas...



O que alguém assim,
como você,
pode saber
de comer sem comer?...

Eu já bebi da água suja,
empoçada em velhas calçadas...

Vesti trapos,
corri da polícia,
tomei porrada,
adoeci
e, no hospital,
só fui maltratada...

Sob o sal
das minhas águas pútridas,
escorridas,
fui comida.

Fui prazer
enquanto morria.
Para sobreviver!

Vida igualzinha a tantas outras
que a sua corja está cansada
de conhecer.

E você aí,
feito salvadora,
com esse gravador,
esse papel,
e essa canetinha...
querendo que eu lhe conte
mais e mais...

Nem a minha história
pode ser só minha!

Não tenho um centavo,
e você quer conversar...
Ah, sai pra lá!...
Minha desgraça não é pão!
Pode ir passando fora,
que eu preciso trabalhar...

ju rigoni (1978)


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sábado

Planeta Ego



O maior
do mais complexo sistema...
Todo mundo tem.

(Inclusive, eu!)

O eu é a primeira
pessoa desse singular
plural...
A primeira,
o prenome,
o pronome,
quiçá, o sobrenome,
e, queira ou não queira,
o eu nunca está eu
porque o eu é
muito mais eu, -
não é um eu de terceira!...

Nunca é um; é O...
Umbigo redondo e fundo.
Ora, seu infinito
é muito maior
que o do outro.

Mas nunca admite!...
É sempre um eu
tão humilde...

Bandido! Que pretensão!
Nunca,
- jamais! -,
será mais
que qualquer outro eu.

Nós? Que nós?
Pronome ou amarras,
relação suicida!

Eu,...
o big
e o bang!
O bum! que destrói
ou revela o indivíduo...

Que o mantem vivo
ou morto
em vida.

Eu
e eu e eu e eu
e eu e eu e eu e eu...

Claustro...
e fobias...

ju rigoni (1998)


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