quinta-feira
Espinhos...
Feriu-se
ao tentar colher a flor...
Não é fácil colher flores...
Não é.
Tudo que há para colher
encolhe-se em espinhos...
Ninguém nasce pronto
para ser colhido,
mas para recolher-se...
ju rigoni (2002)
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domingo
Atrevimento
Que coisa descabida!...
Que direito tem a natureza
de interferir, assim,
em minha tristeza,
exibindo
sem qualquer pudor,
tanta tranquilidade
e beleza?!
ju rigoni (1998)
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sexta-feira
Conselho?
Não!
Não é preciso ser tão coerente...
Você é gente!
Só acerta depois de errar,
É seguir na contramão,
sem sinalização,
sem buzina,
andando de ré...
Só conhece de cor
a cor do sofrimento
quem corre atrás
da felicidade!
Quem,
para estar feliz,
paga o preço
de ser infeliz pelo avesso...
ju rigoni (Anos 80)
Não é preciso ser tão coerente...
Você é gente!
Só acerta depois de errar,
É seguir na contramão,
sem sinalização,
sem buzina,
andando de ré...
Só conhece de cor
a cor do sofrimento
quem corre atrás
da felicidade!
Quem,
para estar feliz,
paga o preço
de ser infeliz pelo avesso...
ju rigoni (Anos 80)
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terça-feira
Acento
Cedo ao desejo
e bem devagarzinho,
o gesto bem leve,
estendo-lhe o dedo.
Ele tremelica
no galho espinhento
e sem perda de tempo
ganha o azul.
Pancinha amarela,
voando ligeiro
ao encontro do par,
o bichinho inquieto
pousa no fio
que me liga ao mundo.
Eles cantam...
e seu canto dá conta
da minha vida...
ju rigoni (Anos 70)
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sábado
Babado
Avô e bisavô,
Antenor descobriu sem medo,
que é possível alcançar o mundo
com as pontas dos dedos.
E aperta-os, trêmulos,
contra o teclado
inocente,
alfabetizado
pela sua mente.
"Ave Maria!
Há noventa e cinco anos...
Quem diria?!..."
E lá vai ele
juntando letrinhas,
formando palavras,
frases, parágrafos,
e lembrando Pessoa:
"Navegar é preciso!"
- Quantas línguas, culturas,
cabem nessas teclas, Leninha!?
E esse mundo novo, avassalador,
assim, tão escancarado!?
É de circo essa geringonça
chamada computador!
Nem tevê,
nem revista masculina, -
vovô só quer saber do pc.
"Veja só essas certinhas!... "
Bom mesmo
é tirar casquinha
do pc da bisnetinha.
E a bisa,
um olho no tricô,
o outro no bisavô,
cheia de ciúmes...
- Levanta daí, Antenor!
Chega de conversa fiada,
para de botar banca
na "olivetti" envenenada.
Mexa-se, estrupício!
Faça algum exercício!...
E ainda que não fosse surdo,
vovô não a ouviria,
tal é a sua paixão
pela nova companhia.
Viajando, lá vai ele!...
Os olhos apertadinhos
para enxergar o teclado
e o mundo abilolado,
que desfila na telinha.
Vovó a tecer sentimentos,
Vovô a teclar pensamentos,
a correr atrás do tempo
para incluir-se,
viver...
no futuro possível.
- Estou lincado
com o o mundo;
Leninha, eu renasci!
E vovó sem entender bulhufas:
- Homessa! Que abacaxi!...
ju rigoni
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terça-feira
Sina
Dividida,
assim... subtraída
ao multiplicar-me na lida,
só vejo luz no sinal
que mais parece uma cruz...
ju rigoni (1983)
ao multiplicar-me na lida,
só vejo luz no sinal
que mais parece uma cruz...
ju rigoni (1983)
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domingo
Perfume de Mulher
No aerobarco, Helga sentou-se à janela. Ao seu lado havia dois lugares vagos.
O da ponta estava sendo ocupado por um senhor alto, de cabelos grisalhos, mas nem bem sentou-se e uma mulher que parecia ter uns trinta anos, - saltos altos, blazer sobre camiseta e jeans -, apontou-lhe o assento do meio. O homem poderia ter passado para a cadeira ao lado de Helga, mas preferiu levantar-se e esperar que a desconhecida lá se acomodasse para sentar-se no lugar originalmente escolhido.
Tudo não passaria de uma cena absolutamente comum naquela sexta-feira não fosse o perfume fortíssimo que exalava da tal passageira. Helga tentou distrair-se com a paisagem mas, droga!, esquecera e sentara-se no lado oposto àquele em que as janelas da embarcação servem de moldura para o Pão de Açúcar, o Corcovado, o Aeroporto Santos Dumont, a Escola Naval... O jeito era contentar-se com a visão da ponte Rio-Niterói.
O aerobarco já estava a meio caminho do ancoradouro da Praça XV, navegando na altura do vão central da Ponte, quando Helga percebeu que alguma coisa não ia bem com sua cabeça, seu estômago, o ritmo de sua respiração...Disfarçou e apertou o nariz procurando respirar pela boca para tentar neutralizar a terrível reação que o perfume da tal mulher, sentada ao seu lado, estava lhe causando.
Mas só piorou.
Quando olhou pela janela novamente viu a histórica Ilha Fiscal começando a apontar na paisagem, que agora estava cheia de minúsculos pontinhos pretos que iam se fechando gradativamente... De repente, a escuridão...
O mal-estar de Helga não passou despercebido, e foi a estranha do perfume quem deu o alarme:
Segurou-lhe a bolsa, a pasta de documentos, e passou um braço ao redor de sua cabeça, acreditando que isso lhe traria algum conforto. Helga, - coitada! -, não poderia recobrar os sentidos. Sua glote estava se fechando cada vez mais por conta daquela "inofensiva" fragrância.
Quando o barco atracou, o passageiro sentado na extremidade prontificou-se a desembarcá-la, levando-a em seu colo. A mulher, então, entregou os pertences de Helga ao comandante e foi embora.
Lá fora, a brisa marinha permitiu que Helga, pouco a pouco, voltasse a si. Uma médica, surgida de não se sabe onde, parou para tomar conhecimento do que estava acontecendo e prestar socorro.
- Ainda não sei muito bem... Isto nunca aconteceu comigo! Acho que foi por causa do perfume de uma mulher que sentou-se ao meu lado...
- Pode ser... Você tem algum tipo de alergia?- Não que eu saiba...
- Conte-me o que aconteceu.
- Eu senti aquele cheiro forte de perfume e fiquei zonza... Minha cabeça começou a rodar e a doer. E tive fortes náuseas. De repente, senti como se alguma coisa me fechasse a garganta e não vi mais nada.
- Olha, eu a aconselho a procurar o seu médico. Acredito que você tenha desenvolvido uma alergia a perfumes, ou a algum de seus componentes. Para uma primeira reação acho que foi muito violenta. Eu diria que você teve sorte. Mais algum tempo junto da tal passageira e as conseqüências poderiam ter sido muito mais sérias.
- O que você quer dizer com "muito mais sérias"?...- Alguns casos, por causa da ação sobre a epiglote, terminam em óbito.
Assustada com a revelação, e ainda meio tonta, mas já de pé, Helga pegou a bolsa e a pasta e tomou o caminho do trabalho prometendo a si mesma nunca mais sentar-se à janela de qualquer meio de transporte, a não ser que estivesse com algum conhecido.
Atravessou o Paço Imperial e entrou pela Avenida Sete de Setembro procurando manter o máximo de distância possível de qualquer pessoa. À noite, ao telefone, depois de me contar o ocorrido, disse que estava com falta de ar porque, apavorada, passara o dia prendendo a respiração toda vez que alguém se aproximava.
Alguns dias depois seu médico confirmou a reação alégica a um certo fixador utilizado na fabricação de perfumes franceses.
ju rigoni (sem registro de data)
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sexta-feira
Sutilezas do Poder II
O homem não estava bêbado, mas trêbado. E como tal fazia muito bom uso da situação. Chegou sozinho ao bar por volta das 19 horas. Estava de cara limpíssima. Alto, porte atlético, bem vestido, pediu uma cerveja. Depois outra. E mais outra... E outra...
Ninguém que o tenha visto chegar o reconheceria agora. Mal conseguia manter-se sentado. As bochechas vermelhas e inchadas, os braços estirados ao longo do corpo, - toda vez que se levantava para ir ao banheiro era aquele passinho incerto e o óbvio balança-mas-não-cai. Quando falava, exibia a dislexia característica do alcoólatra, - z em lugar do s, d ao invés de t, enfim, aquele misto de voz pastosa com língua que já não encontra seu lugar dentro da boca.
- Draz oudro jopp, gombanhêrum!
Vez em quando dava de cantar:
- Dorneeeeeeeeeeeeei-me um évrio/na vevida vusgo ez(i)quezer/aguela ingraaaaaada que me amava e que me avandonou...
- Cala a boca aí, ô pudim de cachaça!
- Vá cantar em outra freguesia, bebum!
Os protestos vinham de várias mesas.
- Uuus ingomodados gui zi mudem!
- Pára de beber, ô chato inflamável!
- Eeeeu vevo zim/Esdou vifeeeendo/dem zente gue naum veve esdá morreeendo, eu vevo zim...
- Vai morrer em casa, ô pé-de cana!
E assim a noite foi passando. O homem bebendo, indo e voltando trôpego do banheiro, e
desfiando o repertório que lhe vinha à mente avariada pelo álcool até que, de repente, entra no bar um grupo de funcionários que trabalhavam na empresa do tal bebum.
- Caraca! Olha o estado em que se encontra o dr. Inácio! - aponta um deles.
Neste momento, o bêbado estava todo retorcido na cadeira, um lado do rosto "mergulhado" numa travessa contendo restos de aipim frito. Os companheiros, penalizados, aproximam-se e sentam-se à mesa onde "jaz" Inácio. Este imediatamente levanta-se, torto como ele só.
- Oiiiiiiii, bezoal! Agora vai vigar melhor. Iiizo meschmo! Zentem agui gomigo...
Alberto está desolado com as condições do chefe.
- O que é que está acontecendo com o senhor, dr.Inácio? Por que é que bebeu tanto?...
- Iiiiih! Zá vou me arrebender de der gonvidado vozês bra zentar...
E o Toni:
- Não quer que eu peça um café bem forte?
- Ô gara! Já jega o gafé gue a gente doma lá naquela borra de esgridório... Garzon! Draz jopp agui bra rabaziada! Dudo bor minha gonda...
E a Lena, noiva do Toni, preocupadíssima.
- Dr.Inácio, o senhor bebeu à-beça e não se alimentou direito ainda. Não seria bom comer alguma coisa?
Inácio, a cara já inchada, olhos vermelhos a meio palmo, aquele sorrizinho sacana de canto de boca:
- Zó ze vor bra gomer vozê, dozinho, - he-he...
- RESPEITO COM A MINHA NOIVA, HEIN!!! O fato do senhor estar bêbado e ser nosso superior no trabalho não lhe dá o direito de extrapolar. Não vem que não tem! O senhor não está assim tão inconsciente. E se estiver, posso refrescar sua memória com uma porrada.
A turma do deixa-disso logo interfere.
- Deixa pra lá, Toni! Não vê que ele não está aguentando nem com ele?... O vento da
porrada já seria suficiente para derrubar o homem!
- Calma, meu bem! - Lena tenta amenizar - ele está muito ruinzinho...
Enquanto isso, Inácio já está tropeçando nas pernas para alcançar novamente o banheiro. Vai passando por entre as mesas, apoiando-se no espaldar de uma cadeira aqui, outra ali, sob os protestos de seus ocupantes, - vez em quando mete involuntariamente o cotovelo na cabeça de alguém sentado.
- Gueeeira me desgulbar...
Quando retorna à mesa os ânimos já foram contidos. Todos têm uma tulipa ou um caneco cheio de chopp diante de si. Mas em frente ao lugar de Inácio está uma chícara de café fumegando.
- Guem voi gue bediu eza meeerda? Voi vozê, dozinho?
- DOCINHO É A MÃE! Vamos cessar as intimidades com a minha noiva...
Pronto! Começa tudo de novo. E a noite, que era para ser agradável e relaxante, gira em torno do porre de Inácio que, sem a censura do consciente, vira-e-mexe arranja uma confusão.
Hora de ir embora, o trêbado ressonando, agora com a cara enfiada num prato com restos mortais de um frango à passarinho, precisa da ajuda dos amigos e garçons para ser levado até um rádio-táxi. De posse do endereço, o motorista despeja o ébrio aos pés do porteiro do edifício onde mora.
Dia seguinte, Inácio muito sério, a elegância habitual, abre a porta do escritório que dá para as mesas de trabalho dos companheiros de noitada.
- Bom dia a todos! - E como se nada tivesse acontecido:
- Reunião às onze! Quero todos os relatórios prontos. Não vou admitir atrasos ainda que me apresentem justificativas, ouviram bem? E por favor falem baixo que, estranhamente, hoje acordei com muita dor de cabeça...
ju rigoni
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quinta-feira
Saindo da Linha...
Rodolfo entrou no ônibus. Tirou do bolso de trás da surrada calça jeans as moedinhas que lhe haviam sobrado e entregou-as ao trocador que, pim! pim! pim -, bateu com uma delas na haste de metal ao seu lado, sinalizando para o motorista dar a partida.
Rodolfo viu um lugar vago à janela e lá se aboletou. Daqui a pouco o veículo estaria superlotado e ele não iria querer sentar no "desculpe", apelido que o carioca inventou para aqueles lugares que ficam rentes ao corredor, onde todo mundo passa em meio a cotoveladas, bolsadas, bundadas, "pauladas", e desconta como pode, disfarçadamente, na cabeça de quem neles se acomoda para logo em seguida se desculpar.
O coletivo vinha de Copacabana com destino a um dos maiores subúrbios do Rio e ele olhava sem qualquer interesse a paisagem de todos os dias, - o Pão de Açúcar, a baía de Guanabara, o Aterro do Flamengo, sem se dar conta de que corria diante de seus olhos uma das belezas mais cobiçadas pelos turistas deste planeta.
Depois de enfrentar o engarrafamento do centro da cidade, já à altura da Avenida Brasil, não havia lugar nem para um microscópico ácaro. Rodolfo, a cara na janela aberta, escapara também do mix de cecê com bafo da cachaça que faz o "happy hour" de quem pega na britadeira. E apesar de cheio, - cheio não: entupido! -, o motorista teimava em parar nos pontos para novos passageiros. Claro que os adjetivos endereçados à senhora sua mãe já estavam competindo com os da mãe de qualquer juiz de futebol.
Rodolfo estava até acreditando que aquela era uma das viagens mais tranqüilas que fizera desde que arranjou esse emprego de entregador de supermercado em Copacabana quando ouviu o som de alguém sendo estapeado. Vinha lá dos fundos do ônibus.
- Seu cretino! Tira esse negócio daí... Plaft!
- Minha senhora, é só o cabo do meu guarda-chuva!...
- Pois então vá encostar o cabo dessa merda na tua mãe... Plaft!
A gargalhada fazendo a curva.
O rapaz franzino, a cara estampando as bofetadas, tratou de dar mais uns passos à frente, não sem ouvir muita reclamação, muito palavrão das pessoas que necessitava incomodar para ganhar distância da tal mulher. Veio vindo, naquele empurra daqui, empurra dali, até que parou quase em frente ao banco em que Rodolfo e uma mulher de carnes fartas, mas bem torneadas haviam se sentado. O rapaz ficou lá, quietinho, encolhidinho, as faces vermelhinhas como provavelmente jamais estiveram.
E o motorista parando para novos passageiros...
Um rumor reclamatório... Alguém cujo corpo mais parecia uma mola, veio se entortando para um lado e outro, e parou bem junto do rapazote que fora estapeado. Só que o sujeito estava cheio de sacolas. Rodolfo percebeu que a mulher ao seu lado estava incomodada com aquelas bolsas sacudindo bem pertinho do seu nariz. E para afastar-se delas, cada vez mais o espremia em seu lugar. Vez em quando, a mulher reclamava. Entretanto, ao invés de procurar melhor acomodação para os volumes, o estrupício parecia esforçar-se em atingir o alto da cabeça e o rosto da desconhecida. De repente, a mulher "cresceu". Parecia um vulcão prestes a entrar em erupção...
- Tenório... TENÓÓÓRIO! ACORDA, AMORZÃO!...
Dois bancos à frente um incrível "hulk" com cara de sono levantou-se e olhou para trás:
- Que foi, amorzinho?
- Me tira daqui este sacana sem semancol que está enfiando suas sacolas na minha cara. - E apontou o passageiro-mola.
Rodolfo nunca viu nada igual. O "amorzão" parecia possuído pelo demo. Não havendo espaço no corredor do coletivo, pulou os dois bancos que o separavam da mulher pisando em seus ocupantes e fazendo estragos consideráveis em seus pertences. Enquanto estes reclamavam, ele já estava tentando acertar o "sacana" das sacolas que, apavorado, deixou-as lá mesmo onde estava e se esgueirava por entre as pessoas tentando alcançar a porta de saída. O "armário embutido", pelo sim, pelo não, largou a primeira porrada no baixinho do guarda-chuva que desmilingüiu-se entre os passageiros que estavam de pé e que, arrochadíssimos, empurravam-no uns para os outros como se fosse um boneco joão-bobo.
- Pára, motorista! Paraê, porra, que neguinho tá querendo me transformar em extrato de tomate... - O gigante quase alcançando o homem-mola...
- Só posso parar no ponto!
O homem-mola, desesperado enfiou-se pela janela do passageiro sentado no primeiro e solitário banco, o "egoísta". Mas... Tiro na água! Ficou travado pelos quadris: metade do corpo à disposição do titânico "amorzão".
E tome porrada na bunda e na coluna vertebral... E a turma do deixa-disso em coro:
- Chega! Você vai matar o carinha...
- O mundo não vai perder grande coisa... - E tome bordoada...
O motorista avistou um carro da polícia e sinalizou. Quando o ônibus parou, o sujeito saltou e passou a esmurrar a cara do passageiro pelo lado de fora até que os policiais se aproximassem e, com muita dificuldade, o algemassem.
No chão, o esbofeteado do guarda-chuva e a "rolha" de janela. Hematomas, sangue, - ambos desmaiados ou mortos, - foi o que o policial que chamou os paramédicos informou pelo rádio.
Na hora de juntar testemunhas, sobrou pra Rodolfo. A mulher meteu-lhe o indicador na cara, apontando-o para os policiais:
- Ele viu tudo!
Pobre Rodolfo! Quase foi preso junto com o "demolidor", - os policiais acreditando que era amigo de amorzinho e amorzão. Carteira de identidade, cpf, carteira de trabalho, número de telefone de conhecidos, Rodolfo teve que provar por a + b que jamais havia visto aquelas pessoas.
Quando finalmente conseguiu sair do distrito policial, acompanhado do advogado que o patrão lhe enviara, pensou estar sonhando...
Agora, ônibus no horário de rush nunca mais! Apesar da claustrofobia, um luxo que não combina com a sua condição de pobre, Rodolfo só vai e volta do trabalho de metrô.
Ai, ai...
Rodolfo viu um lugar vago à janela e lá se aboletou. Daqui a pouco o veículo estaria superlotado e ele não iria querer sentar no "desculpe", apelido que o carioca inventou para aqueles lugares que ficam rentes ao corredor, onde todo mundo passa em meio a cotoveladas, bolsadas, bundadas, "pauladas", e desconta como pode, disfarçadamente, na cabeça de quem neles se acomoda para logo em seguida se desculpar.
O coletivo vinha de Copacabana com destino a um dos maiores subúrbios do Rio e ele olhava sem qualquer interesse a paisagem de todos os dias, - o Pão de Açúcar, a baía de Guanabara, o Aterro do Flamengo, sem se dar conta de que corria diante de seus olhos uma das belezas mais cobiçadas pelos turistas deste planeta.
Depois de enfrentar o engarrafamento do centro da cidade, já à altura da Avenida Brasil, não havia lugar nem para um microscópico ácaro. Rodolfo, a cara na janela aberta, escapara também do mix de cecê com bafo da cachaça que faz o "happy hour" de quem pega na britadeira. E apesar de cheio, - cheio não: entupido! -, o motorista teimava em parar nos pontos para novos passageiros. Claro que os adjetivos endereçados à senhora sua mãe já estavam competindo com os da mãe de qualquer juiz de futebol.
Rodolfo estava até acreditando que aquela era uma das viagens mais tranqüilas que fizera desde que arranjou esse emprego de entregador de supermercado em Copacabana quando ouviu o som de alguém sendo estapeado. Vinha lá dos fundos do ônibus.
- Seu cretino! Tira esse negócio daí... Plaft!
- Minha senhora, é só o cabo do meu guarda-chuva!...
- Pois então vá encostar o cabo dessa merda na tua mãe... Plaft!
A gargalhada fazendo a curva.
O rapaz franzino, a cara estampando as bofetadas, tratou de dar mais uns passos à frente, não sem ouvir muita reclamação, muito palavrão das pessoas que necessitava incomodar para ganhar distância da tal mulher. Veio vindo, naquele empurra daqui, empurra dali, até que parou quase em frente ao banco em que Rodolfo e uma mulher de carnes fartas, mas bem torneadas haviam se sentado. O rapaz ficou lá, quietinho, encolhidinho, as faces vermelhinhas como provavelmente jamais estiveram.
E o motorista parando para novos passageiros...
Um rumor reclamatório... Alguém cujo corpo mais parecia uma mola, veio se entortando para um lado e outro, e parou bem junto do rapazote que fora estapeado. Só que o sujeito estava cheio de sacolas. Rodolfo percebeu que a mulher ao seu lado estava incomodada com aquelas bolsas sacudindo bem pertinho do seu nariz. E para afastar-se delas, cada vez mais o espremia em seu lugar. Vez em quando, a mulher reclamava. Entretanto, ao invés de procurar melhor acomodação para os volumes, o estrupício parecia esforçar-se em atingir o alto da cabeça e o rosto da desconhecida. De repente, a mulher "cresceu". Parecia um vulcão prestes a entrar em erupção...
- Tenório... TENÓÓÓRIO! ACORDA, AMORZÃO!...
Dois bancos à frente um incrível "hulk" com cara de sono levantou-se e olhou para trás:
- Que foi, amorzinho?
- Me tira daqui este sacana sem semancol que está enfiando suas sacolas na minha cara. - E apontou o passageiro-mola.
Rodolfo nunca viu nada igual. O "amorzão" parecia possuído pelo demo. Não havendo espaço no corredor do coletivo, pulou os dois bancos que o separavam da mulher pisando em seus ocupantes e fazendo estragos consideráveis em seus pertences. Enquanto estes reclamavam, ele já estava tentando acertar o "sacana" das sacolas que, apavorado, deixou-as lá mesmo onde estava e se esgueirava por entre as pessoas tentando alcançar a porta de saída. O "armário embutido", pelo sim, pelo não, largou a primeira porrada no baixinho do guarda-chuva que desmilingüiu-se entre os passageiros que estavam de pé e que, arrochadíssimos, empurravam-no uns para os outros como se fosse um boneco joão-bobo.
- Pára, motorista! Paraê, porra, que neguinho tá querendo me transformar em extrato de tomate... - O gigante quase alcançando o homem-mola...
- Só posso parar no ponto!
O homem-mola, desesperado enfiou-se pela janela do passageiro sentado no primeiro e solitário banco, o "egoísta". Mas... Tiro na água! Ficou travado pelos quadris: metade do corpo à disposição do titânico "amorzão".
E tome porrada na bunda e na coluna vertebral... E a turma do deixa-disso em coro:
- Chega! Você vai matar o carinha...
- O mundo não vai perder grande coisa... - E tome bordoada...
O motorista avistou um carro da polícia e sinalizou. Quando o ônibus parou, o sujeito saltou e passou a esmurrar a cara do passageiro pelo lado de fora até que os policiais se aproximassem e, com muita dificuldade, o algemassem.
No chão, o esbofeteado do guarda-chuva e a "rolha" de janela. Hematomas, sangue, - ambos desmaiados ou mortos, - foi o que o policial que chamou os paramédicos informou pelo rádio.
Na hora de juntar testemunhas, sobrou pra Rodolfo. A mulher meteu-lhe o indicador na cara, apontando-o para os policiais:
- Ele viu tudo!
Pobre Rodolfo! Quase foi preso junto com o "demolidor", - os policiais acreditando que era amigo de amorzinho e amorzão. Carteira de identidade, cpf, carteira de trabalho, número de telefone de conhecidos, Rodolfo teve que provar por a + b que jamais havia visto aquelas pessoas.
Quando finalmente conseguiu sair do distrito policial, acompanhado do advogado que o patrão lhe enviara, pensou estar sonhando...
Agora, ônibus no horário de rush nunca mais! Apesar da claustrofobia, um luxo que não combina com a sua condição de pobre, Rodolfo só vai e volta do trabalho de metrô.
Ai, ai...
domingo
Ousadia
Melhor que escrever poemas
é ler os grandes poetas
e do encontro com o perfeito,
ainda que a pena não valha,
pensar seu próprio poema.
Melhor que escrever poemas
é ousar escrevê-los.
Amar o verso maltrapilho
como ao filho que esperneia.
Melhor que escrever poemas
é acreditar que os escreve, -
imaginá-los perfeitos
apesar da imperfeição.
Melhor que escrever poemas
é ser do poeta o tema, -
a musa que inspira a paixão
que em palavras transpira.
Melhor que escrever poemas
é neles se descobrir, -
versos “sujos”, imprecisos,
de mal com a simetria.
Melhor que escrever poemas
é com a sua poesia,
que de tão sua incomoda,
sem fórceps, extrair a crítica
e ter certeza: ainda vivo!
Melhor que escrever poemas
é ter na alma a palavra
e nas mãos papel e pena, -
a árvore ainda semente.
E plantá-la tão somente
porque lhe traz alegrias.
ju rigoni
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