domingo

Aflição

.
.
Nunca sei se violentas
ou violentadas
as palavras que vem à luz
depois das tormentas.

Nunca saberei a distância
entre a espera e a esperança...
Ou quão grande é a montanha
que a minha fé pode remover...

ju rigoni (1999)


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Amarelo-Admiração

Mentes fantásticas aquelas!...
Tantas vezes a escrever
sob a luz de lampiões.
Ou de velas...

Calorosas chamas
a reesculpir corpos de cera;
papel e pena aliviando a sede;
dando pulso, emoção, -
vida! -,
ao que um dia foi
nada mais que sombras
na mais aflitiva das paredes...

ju rigoni (1987)


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Na Redoma



Não lhe pergunte
o porquê desse medo;
qual é o segredo
que ele esconde
e nutre tão fortes
e poderosas raízes…

Se ela soubesse,
seria livre.

Como sair de onde
não sabe
como entrou?…

Que chave é capaz de abrir
uma porta que não existe?…

ju rigoni (2003)


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Pretéritos



Guardados assim,
na gaveta
da escrivaninha antiga,
entre traças e cupins,
textos, fotografias, -
uns sobre os outros,
amarelados, rendados,
semi-destruídos...
Guardados, não!...
Escondidos de mim...
no velho porão.

Tirá-los de lá?
Mexer nas feridas?...
Tentar curá-las?!
Soprar-lhes ainda alguma dita?...
Não sei...

Por qual razão os esqueci?
Por que abanonei ali
parte da minha vida?

Por quais estranhos caminhos
fui reconduzida a um passado
que, de tão passado,
a pragas serve de alimento?...

Por que só agora
a memória
o devolve a mim?...

ju rigoni (sem registro de data)


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Pressão Convergente




Não! Não há de colher a flor, -
arriscar-se, e uma vez mais
ferir-se em seus espinhos...

Coração apertadinho, -
repuxado pela cicatriz do fim
do momento em que foi feliz...

Certeza sem pulso,
acelerado,
bate/bate/bate, -
defesa ao invés de ataque...

Adeus, tentativa e erro!
Nunca mais um desafio...

ju rigoni (1998)

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Hiatus



Bruxa e fada;
caldeirão e canetinha de condão...
No feitiço da noite
o desmaio da madrugada
a recobrar os sentidos da aurora -
poção, encanto, -
magia...
Encontro da luz
com a palavra...

ju rigoni (2003)


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Balela

.
Vivi muitos amanhãs.
Todos me vieram
com a mesma cara...

Se todo amanhã
um dia foi hoje
e todo hoje
há de ser ontem

nada mais espero...

ju rigoni (1989)

Tomada

.
Nariz espremido
contra o vidro da janela;
olhos parados,
pregados na luz dos azuis
da linha do horizonte...
Imune ao chamado
belo e silente,
sucumbia à tempestade
que armava-se em sua mente...

ju rigoni (2001)


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?...



Procuro em todos os cantos...
Na cozinha, na sala,
no quarto, - debaixo da cama,
dentro dos armários,
no antigo amarrado de cartas -,
em meio aos livros preferidos
e aos tantos escritos
que se espalham pela casa...

Olho demoradamente ao espelho,
bato no peito,
estapeio o rosto,
belisco-me,
e olho de novo...
Nada!

Respiro profundamente
e volto a me perguntar:
Onde?...
Onde você está?

ju rigoni (2004)


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Lição Primeira




Não. Não havia crianças
nas casas vizinhas.

Cuidava de ouvir,
falar,
brincar,
com amigos que só ela via.

Todos eles tinham um nome
que não se sabe de onde surgia.
Todos lhe contavam histórias
que ela reproduzia.

Nem pai nem mãe, -
ninguém compreendia...
Como podia ser tão feliz....
De onde vinha tanta alegria?

Nunca souberam entender
a linguagem dos passarinhos!....

Quem pode ser bem-te-vi
tendo olhos de quero-quero?...

O tempo passando...
A menina a crescer crescendo...
Aprendendo a ser...

Sendo,
nunca esteve sozinha.

ju rigoni (1999)


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