sábado
Haja!...
Você acha mesmo que estou satisfeito?
Que é o bastante você dizer
que o seu amor por mim é grande?
Grande, - você diz...
Grande, em relação a quê?
Grande pode ser tão... pequeno.
Você tem que explicar esse grande
em seus mi-nús-cu-los detalhes...
Preciso conhecer a dimensão desse significado, -
medir com cuidado essa sua... "verdade".
Grande!...
De meros significantes, meu purgatório está cheio.
Não quero um amor só... grande.
Meu meu amor por você
vai muito além de uma palavra...
Faz todo o sentido...
Meu amor por você é infinito!!
?...
Vai ficar aí, calada,
encolhida, nesse sofá?
Ainda não ouvi a sua voz;
e eu sou todo ouvidos...
Pode começar!
ju rigoni (1992)
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Reflexão
domingo
Dentro...
Às vezes,
marco encontro comigo
e... não compareço.
Esqueço que é este
o meu maior compromisso...
Perdida entre
trabalho, amor,
família, amigos,...
afazeres domésticos!...
ignoro os ponteiros,
e a verdade
que o espelho reflete,
mas não reconheço...
De manhã,
ao despertar,
levanto-me da cama,
mas minha chama...
dorme.
Mergulho imediatamente
no mar do velho novo dia...
E, entre tempestades
e calmarias,
ele passa...
Não quer nem saber...
Ele passa.
De madrugada,
após horas e horas
a navegar na insônia,
poucos antes de dormir,
um clarão...
Meu Deus,
não fiz nada do que me prometi!...
Olho o recado
preso à porta, -
escrevi para mim
no ano passado.
Morta de cansaço,
olhos pesados,
marco novo encontro,
e me apago...
De manhã,
ao despertar,
levanto-me da cama,
mas minha chama...
ainda dorme.
Preocupada com a hora,
passo pela porta
feito foguete,
sem me dar conta
do que conta
o tal recado, -
muito mais
que um simples
lembrete...
ju rigoni (1995)
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terça-feira
Oásis
O leitor me escreve,
e a sua mensagem, -
como num passe de mágica -,
me rejuvenesce.
Descreve-me em suas linhas
sem conhecer as linhas
a erodir-me o rosto.
Ah, que desgosto
teria esse leitor
se pudesse me ver
como eu realmente sou...
O espelho que ele envia
me reflete em novo ânimo.
Palavras sem rugas,
sem artrite, sem hipotermia...
sem pânico!
De repente,
de urtiga a flor bela e delicada,
desabrochando no canteiro
da imaginação de um leitor,
que me acredita ainda a mulher
que ele vê na fotografia antiga...
Ah, eu adoro esse leitor,
que se declara apaixonado
por uma imagem do passado,
e nem imagina o milagre
que suas palavras
operam em mim...
Ao abrir a caixa de correio
para ler as novas mensagens,
não resisto!...
Abro o arquivo, -
leio e releio,
entre incrédula e encantada,
suas tão sedutoras miragens...
Blogar tem, sim,
algumas vantagens...
rsrs
ju rigoni (2007)
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sábado
Fatal
Distancio-me dos teus olhos,
faróis a lançar luz
no meu mar de segredos...
Sobre eles, não ouso me debruçar...
Dois círculos mágicos,
duas lindas mandalas,
que alumiam o que eu sei
mas não quero revelar...
Ui! Que olhos!...
...de mergulhar fundo...
de amolecer pedra,
de encrespar o mar,
de enfeitiçar o mundo...
Duas lindas luas
a brilhar num rosto
que é noite de mistério
e sonho...
Procuro um abrigo, -
qualquer coisa
que me livre do perigo
de um mergulho mais fundo
no castanho do seu olhar...
ju rigoni (2002)
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quinta-feira
Espinhos...
Feriu-se
ao tentar colher a flor...
Não é fácil colher flores...
Não é.
Tudo que há para colher
encolhe-se em espinhos...
Ninguém nasce pronto
para ser colhido,
mas para recolher-se...
ju rigoni (2002)
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domingo
Atrevimento
Que coisa descabida!...
Que direito tem a natureza
de interferir, assim,
em minha tristeza,
exibindo
sem qualquer pudor,
tanta tranquilidade
e beleza?!
ju rigoni (1998)
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sexta-feira
Conselho?
Não!
Não é preciso ser tão coerente...
Você é gente!
Só acerta depois de errar,
É seguir na contramão,
sem sinalização,
sem buzina,
andando de ré...
Só conhece de cor
a cor do sofrimento
quem corre atrás
da felicidade!
Quem,
para estar feliz,
paga o preço
de ser infeliz pelo avesso...
ju rigoni (Anos 80)
Não é preciso ser tão coerente...
Você é gente!
Só acerta depois de errar,
É seguir na contramão,
sem sinalização,
sem buzina,
andando de ré...
Só conhece de cor
a cor do sofrimento
quem corre atrás
da felicidade!
Quem,
para estar feliz,
paga o preço
de ser infeliz pelo avesso...
ju rigoni (Anos 80)
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terça-feira
Acento
Cedo ao desejo
e bem devagarzinho,
o gesto bem leve,
estendo-lhe o dedo.
Ele tremelica
no galho espinhento
e sem perda de tempo
ganha o azul.
Pancinha amarela,
voando ligeiro
ao encontro do par,
o bichinho inquieto
pousa no fio
que me liga ao mundo.
Eles cantam...
e seu canto dá conta
da minha vida...
ju rigoni (Anos 70)
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sábado
Babado
Avô e bisavô,
Antenor descobriu sem medo,
que é possível alcançar o mundo
com as pontas dos dedos.
E aperta-os, trêmulos,
contra o teclado
inocente,
alfabetizado
pela sua mente.
"Ave Maria!
Há noventa e cinco anos...
Quem diria?!..."
E lá vai ele
juntando letrinhas,
formando palavras,
frases, parágrafos,
e lembrando Pessoa:
"Navegar é preciso!"
- Quantas línguas, culturas,
cabem nessas teclas, Leninha!?
E esse mundo novo, avassalador,
assim, tão escancarado!?
É de circo essa geringonça
chamada computador!
Nem tevê,
nem revista masculina, -
vovô só quer saber do pc.
"Veja só essas certinhas!... "
Bom mesmo
é tirar casquinha
do pc da bisnetinha.
E a bisa,
um olho no tricô,
o outro no bisavô,
cheia de ciúmes...
- Levanta daí, Antenor!
Chega de conversa fiada,
para de botar banca
na "olivetti" envenenada.
Mexa-se, estrupício!
Faça algum exercício!...
E ainda que não fosse surdo,
vovô não a ouviria,
tal é a sua paixão
pela nova companhia.
Viajando, lá vai ele!...
Os olhos apertadinhos
para enxergar o teclado
e o mundo abilolado,
que desfila na telinha.
Vovó a tecer sentimentos,
Vovô a teclar pensamentos,
a correr atrás do tempo
para incluir-se,
viver...
no futuro possível.
- Estou lincado
com o o mundo;
Leninha, eu renasci!
E vovó sem entender bulhufas:
- Homessa! Que abacaxi!...
ju rigoni
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terça-feira
Sina
Dividida,
assim... subtraída
ao multiplicar-me na lida,
só vejo luz no sinal
que mais parece uma cruz...
ju rigoni (1983)
ao multiplicar-me na lida,
só vejo luz no sinal
que mais parece uma cruz...
ju rigoni (1983)
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