domingo
Dentro...
Às vezes,
marco encontro comigo
e... não compareço.
Esqueço que é este
o meu maior compromisso...
Perdida entre
trabalho, amor,
família, amigos,...
afazeres domésticos!...
ignoro os ponteiros,
e a verdade
que o espelho reflete,
mas não reconheço...
De manhã,
ao despertar,
levanto-me da cama,
mas minha chama...
dorme.
Mergulho imediatamente
no mar do velho novo dia...
E, entre tempestades
e calmarias,
ele passa...
Não quer nem saber...
Ele passa.
De madrugada,
após horas e horas
a navegar na insônia,
poucos antes de dormir,
um clarão...
Meu Deus,
não fiz nada do que me prometi!...
Olho o recado
preso à porta, -
escrevi para mim
no ano passado.
Morta de cansaço,
olhos pesados,
marco novo encontro,
e me apago...
De manhã,
ao despertar,
levanto-me da cama,
mas minha chama...
ainda dorme.
Preocupada com a hora,
passo pela porta
feito foguete,
sem me dar conta
do que conta
o tal recado, -
muito mais
que um simples
lembrete...
ju rigoni (1995)
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terça-feira
Oásis
O leitor me escreve,
e a sua mensagem, -
como num passe de mágica -,
me rejuvenesce.
Descreve-me em suas linhas
sem conhecer as linhas
a erodir-me o rosto.
Ah, que desgosto
teria esse leitor
se pudesse me ver
como eu realmente sou...
O espelho que ele envia
me reflete em novo ânimo.
Palavras sem rugas,
sem artrite, sem hipotermia...
sem pânico!
De repente,
de urtiga a flor bela e delicada,
desabrochando no canteiro
da imaginação de um leitor,
que me acredita ainda a mulher
que ele vê na fotografia antiga...
Ah, eu adoro esse leitor,
que se declara apaixonado
por uma imagem do passado,
e nem imagina o milagre
que suas palavras
operam em mim...
Ao abrir a caixa de correio
para ler as novas mensagens,
não resisto!...
Abro o arquivo, -
leio e releio,
entre incrédula e encantada,
suas tão sedutoras miragens...
Blogar tem, sim,
algumas vantagens...
rsrs
ju rigoni (2007)
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sábado
Fatal
Distancio-me dos teus olhos,
faróis a lançar luz
no meu mar de segredos...
Sobre eles, não ouso me debruçar...
Dois círculos mágicos,
duas lindas mandalas,
que alumiam o que eu sei
mas não quero revelar...
Ui! Que olhos!...
...de mergulhar fundo...
de amolecer pedra,
de encrespar o mar,
de enfeitiçar o mundo...
Duas lindas luas
a brilhar num rosto
que é noite de mistério
e sonho...
Procuro um abrigo, -
qualquer coisa
que me livre do perigo
de um mergulho mais fundo
no castanho do seu olhar...
ju rigoni (2002)
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quinta-feira
Espinhos...
Feriu-se
ao tentar colher a flor...
Não é fácil colher flores...
Não é.
Tudo que há para colher
encolhe-se em espinhos...
Ninguém nasce pronto
para ser colhido,
mas para recolher-se...
ju rigoni (2002)
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domingo
Atrevimento
Que coisa descabida!...
Que direito tem a natureza
de interferir, assim,
em minha tristeza,
exibindo
sem qualquer pudor,
tanta tranquilidade
e beleza?!
ju rigoni (1998)
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sexta-feira
Conselho?
Não!
Não é preciso ser tão coerente...
Você é gente!
Só acerta depois de errar,
É seguir na contramão,
sem sinalização,
sem buzina,
andando de ré...
Só conhece de cor
a cor do sofrimento
quem corre atrás
da felicidade!
Quem,
para estar feliz,
paga o preço
de ser infeliz pelo avesso...
ju rigoni (Anos 80)
Não é preciso ser tão coerente...
Você é gente!
Só acerta depois de errar,
É seguir na contramão,
sem sinalização,
sem buzina,
andando de ré...
Só conhece de cor
a cor do sofrimento
quem corre atrás
da felicidade!
Quem,
para estar feliz,
paga o preço
de ser infeliz pelo avesso...
ju rigoni (Anos 80)
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terça-feira
Acento
Cedo ao desejo
e bem devagarzinho,
o gesto bem leve,
estendo-lhe o dedo.
Ele tremelica
no galho espinhento
e sem perda de tempo
ganha o azul.
Pancinha amarela,
voando ligeiro
ao encontro do par,
o bichinho inquieto
pousa no fio
que me liga ao mundo.
Eles cantam...
e seu canto dá conta
da minha vida...
ju rigoni (Anos 70)
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sábado
Babado
Avô e bisavô,
Antenor descobriu sem medo,
que é possível alcançar o mundo
com as pontas dos dedos.
E aperta-os, trêmulos,
contra o teclado
inocente,
alfabetizado
pela sua mente.
"Ave Maria!
Há noventa e cinco anos...
Quem diria?!..."
E lá vai ele
juntando letrinhas,
formando palavras,
frases, parágrafos,
e lembrando Pessoa:
"Navegar é preciso!"
- Quantas línguas, culturas,
cabem nessas teclas, Leninha!?
E esse mundo novo, avassalador,
assim, tão escancarado!?
É de circo essa geringonça
chamada computador!
Nem tevê,
nem revista masculina, -
vovô só quer saber do pc.
"Veja só essas certinhas!... "
Bom mesmo
é tirar casquinha
do pc da bisnetinha.
E a bisa,
um olho no tricô,
o outro no bisavô,
cheia de ciúmes...
- Levanta daí, Antenor!
Chega de conversa fiada,
para de botar banca
na "olivetti" envenenada.
Mexa-se, estrupício!
Faça algum exercício!...
E ainda que não fosse surdo,
vovô não a ouviria,
tal é a sua paixão
pela nova companhia.
Viajando, lá vai ele!...
Os olhos apertadinhos
para enxergar o teclado
e o mundo abilolado,
que desfila na telinha.
Vovó a tecer sentimentos,
Vovô a teclar pensamentos,
a correr atrás do tempo
para incluir-se,
viver...
no futuro possível.
- Estou lincado
com o o mundo;
Leninha, eu renasci!
E vovó sem entender bulhufas:
- Homessa! Que abacaxi!...
ju rigoni
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terça-feira
Sina
Dividida,
assim... subtraída
ao multiplicar-me na lida,
só vejo luz no sinal
que mais parece uma cruz...
ju rigoni (1983)
ao multiplicar-me na lida,
só vejo luz no sinal
que mais parece uma cruz...
ju rigoni (1983)
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domingo
Perfume de Mulher
No aerobarco, Helga sentou-se à janela. Ao seu lado havia dois lugares vagos.
O da ponta estava sendo ocupado por um senhor alto, de cabelos grisalhos, mas nem bem sentou-se e uma mulher que parecia ter uns trinta anos, - saltos altos, blazer sobre camiseta e jeans -, apontou-lhe o assento do meio. O homem poderia ter passado para a cadeira ao lado de Helga, mas preferiu levantar-se e esperar que a desconhecida lá se acomodasse para sentar-se no lugar originalmente escolhido.
Tudo não passaria de uma cena absolutamente comum naquela sexta-feira não fosse o perfume fortíssimo que exalava da tal passageira. Helga tentou distrair-se com a paisagem mas, droga!, esquecera e sentara-se no lado oposto àquele em que as janelas da embarcação servem de moldura para o Pão de Açúcar, o Corcovado, o Aeroporto Santos Dumont, a Escola Naval... O jeito era contentar-se com a visão da ponte Rio-Niterói.
O aerobarco já estava a meio caminho do ancoradouro da Praça XV, navegando na altura do vão central da Ponte, quando Helga percebeu que alguma coisa não ia bem com sua cabeça, seu estômago, o ritmo de sua respiração...Disfarçou e apertou o nariz procurando respirar pela boca para tentar neutralizar a terrível reação que o perfume da tal mulher, sentada ao seu lado, estava lhe causando.
Mas só piorou.
Quando olhou pela janela novamente viu a histórica Ilha Fiscal começando a apontar na paisagem, que agora estava cheia de minúsculos pontinhos pretos que iam se fechando gradativamente... De repente, a escuridão...
O mal-estar de Helga não passou despercebido, e foi a estranha do perfume quem deu o alarme:
Segurou-lhe a bolsa, a pasta de documentos, e passou um braço ao redor de sua cabeça, acreditando que isso lhe traria algum conforto. Helga, - coitada! -, não poderia recobrar os sentidos. Sua glote estava se fechando cada vez mais por conta daquela "inofensiva" fragrância.
Quando o barco atracou, o passageiro sentado na extremidade prontificou-se a desembarcá-la, levando-a em seu colo. A mulher, então, entregou os pertences de Helga ao comandante e foi embora.
Lá fora, a brisa marinha permitiu que Helga, pouco a pouco, voltasse a si. Uma médica, surgida de não se sabe onde, parou para tomar conhecimento do que estava acontecendo e prestar socorro.
- Ainda não sei muito bem... Isto nunca aconteceu comigo! Acho que foi por causa do perfume de uma mulher que sentou-se ao meu lado...
- Pode ser... Você tem algum tipo de alergia?- Não que eu saiba...
- Conte-me o que aconteceu.
- Eu senti aquele cheiro forte de perfume e fiquei zonza... Minha cabeça começou a rodar e a doer. E tive fortes náuseas. De repente, senti como se alguma coisa me fechasse a garganta e não vi mais nada.
- Olha, eu a aconselho a procurar o seu médico. Acredito que você tenha desenvolvido uma alergia a perfumes, ou a algum de seus componentes. Para uma primeira reação acho que foi muito violenta. Eu diria que você teve sorte. Mais algum tempo junto da tal passageira e as conseqüências poderiam ter sido muito mais sérias.
- O que você quer dizer com "muito mais sérias"?...- Alguns casos, por causa da ação sobre a epiglote, terminam em óbito.
Assustada com a revelação, e ainda meio tonta, mas já de pé, Helga pegou a bolsa e a pasta e tomou o caminho do trabalho prometendo a si mesma nunca mais sentar-se à janela de qualquer meio de transporte, a não ser que estivesse com algum conhecido.
Atravessou o Paço Imperial e entrou pela Avenida Sete de Setembro procurando manter o máximo de distância possível de qualquer pessoa. À noite, ao telefone, depois de me contar o ocorrido, disse que estava com falta de ar porque, apavorada, passara o dia prendendo a respiração toda vez que alguém se aproximava.
Alguns dias depois seu médico confirmou a reação alégica a um certo fixador utilizado na fabricação de perfumes franceses.
ju rigoni (sem registro de data)
Visite também
Fundo de Mim II, Dormentes, Medo de Avião,
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