domingo

Grau



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Se a vista já não nos alcança


salva-nos a imaginação...



Lá dentro,


tudo é possível...



ju rigoni (2000)



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Algum Bálsamo




Debruçada à janela,
ouço a conversa da passarada, -
o alerta do bem-te-vi,
a pirraça do quero-quero...

Sem controle-remoto,
assisto ao divino
e colorido programa, -
alguma festa
para os meus olhos cansados...

Pequenos grandes agrados
da natureza...
Criaturinhas frágeis, indefesas, -
de descomunal beleza.

Procuram o que lhes sobra...
Pequenas ilhas de verde
no mar de cimento e telhados
que, desordenadamente, ocupam
o lugar onde, no passado,
só havia árvores,
flores, frutos,... ninhos.

Lá, um pouco mais distante,
à beira da lagoa,
estão as garças
e suas pernas fininhas.
Imóveis, aparentemente distraídas,
como a esperar um salvador, -
alguém que lhes devolva
orla e águas despoluídas...

Subitamente, levantam vôo;
ganham altura incomum...

De lá, do alto,
podem ver o predador
no tamanho que merece...

ju rigoni (2001)

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Luz!

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Pensou então em morrer...
Não uma morte qualquer, -
uma partida espetaculosa!

Finalmente as telas,
as ansiadas janelas,
uma cor forte, intensa, -
alguma prosa no escuro
das suas páginas em branco...

E conseguiu a proeza, -
ainda que à derradeira hora -,
de ser celebridade,
(gênero de primeira necessidade?) ,
natureza imposta ao novo homem,
a extinguir extinguindo-se
na ânsia de exibir-se...

Ah, que mundo é esse?!...

ju rigoni (2008)


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, Dormentes, Medo de Aviao.

Corais



Um poema tem cordas,
metais, madeiras,
percussão, teclas...
Vozes...

Música!

De frente para os versos,
as almas saltam aos sentidos...
Apossam-se da batuta,
e em gestos alongados ou breves,
regem-nos, como se fossem seus.

Multiplicam-se as partituras...
e eis que o poema é mais, -
criador e criatura.

O poeta que o escreveu,...
bem,... ainda está lá,...
em meio à platéia atenta...

No subir e cair do pano,
entre aplausos e vaias,...
a surpresa é estribilho:
tantos eus tem o meu filho!...

ju rigoni (2008)


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sábado

Plataforma

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Amanhã, depois de acordar, -

se acordar;

quando a ressaca passar, -

se passar -,

há de se levantar uma tal ju rigoni,

que me fará esquecer m’eu nome

e talvez, - quem sabe?... -, voltar a escrever...


ju rigoni (sem registro de data)


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, Dormentes, Medo de Avião.

domingo

Sem Dono

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Eu passarei,
porque o tempo
há de me ultrapassar...

E tudo que acredito meu,
como eu,
nada mais será...

ju rigoni (2000)


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Café da Manhã




Torceu o nariz para as palavras

que escorriam em sal aguado

afogando o azul desbotado

do bordado da toalha...


Aqui e ali, o remendo das migalhas

do pão dos dias outrora dormidos,

e agora desacordados...


ju rigoni (2005)


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Sem Ação

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Sorria!
Mexa os músculos da face,
Disfarce o seu mau-humor.
Em nome da segurança,
dê adeus à privacidade,
e contenha a indignação.

Você está sendo invadido,
Você está sendo filmado, -
não há o que você faça
que já não seja sabido;
que há muito não esteja gravado...

ju rigoni (2008)


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Verticais

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Palavras vestidas num pretinho básico,
que não destaca os excessos
das curvas perigosas.
Palavras em cima do salto quebrado;
em plano que ninguém vê...
Palavras de perfume inebriante, sedutor...
Palavras d e l i c i o s a s!

Maquiagem importada...
batom cor-de-rosa, -
a amenizar o negro da sombra
que aprofunda o olhar.

Ah, que esplêndido gozo,
não fossem apenas pobres palavras pobres
cheias de corpo e vazias de alma...
perdidas na névoa do horário nobre...

ju rigoni (2002)


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Lixo

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Nada lhe escapa...

Tubarões, enguias, sardinhas,
peixinhos ornamentais,
arraias, estrelas, baleias,
polvos, camarões, golfinhos,...

Sacos plásticos, latinhas,
seringas, camisinhas usadas,
embarcações naufragadas,
armas, drogas, defuntos,
mensagens engarrafadas,

Nem o mar dentro do mar...

Pesca tudo, tudo, tudo...
nada escapa à sua rede...

Nem ele,
pescador pescado.

ju rigoni (1998)


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