domingo

Ousadia



Melhor que escrever poemas
é ler os grandes poetas
e do encontro com o perfeito,
ainda que a pena não valha,
pensar seu próprio poema.

Melhor que escrever poemas
é ousar escrevê-los.
Amar o verso maltrapilho
como ao filho que esperneia.

Melhor que escrever poemas
é acreditar que os escreve, -
imaginá-los perfeitos
apesar da imperfeição.

Melhor que escrever poemas
é ser do poeta o tema, -
a musa que inspira a paixão
que em palavras transpira.

Melhor que escrever poemas
é neles se descobrir, -
versos “sujos”, imprecisos,
de mal com a simetria.

Melhor que escrever poemas
é com a sua poesia,
que de tão sua incomoda,
sem fórceps, extrair a crítica
e ter certeza: ainda vivo!

Melhor que escrever poemas
é ter na alma a palavra
e nas mãos papel e pena, -
a árvore ainda semente.

E plantá-la tão somente
porque lhe traz alegrias.

ju rigoni




Zora


Zora, amore mio, vovó te ama muuuuito. Feliz Aniversário!





Zora


Chego em casa
e ela corre para mim com os braços abertos.
- Vovó! -, ela exclama.

Além da saudade e das lembranças,
da saúde ora frágil ora forte,
- dos trecos…
já muito não me sobra da ascendência.

Mas quando em seus três anos de sabedoria,
ela abre os braços e espalma as pequeninas mãos,
sorrindo para esta avó-brinquedo,
é como se todos estivessem de volta.

Ganham nova vida
meu pai, meus avós, meus tios…

Ouço seus passinhos correndo pela casa,
pelo jardim...
- Não mexa aí, querida!

Qual borboletinha feliz resiste às flores?
Quais cores resistem à luz?
Assim, tão perto,
às vezes me confunde...
Quando longe,
meu valioso monet
de cabelos de anjo, único.
Nela, a luz que me permite a cor
em todos os seus matizes.

Expectante,
e crente em Deus,
agradeço a ternura,
a delicadeza,
a certeza de que me apago
para escrever melhor história…
Que a memória,
não apenas na palavra,
também está no gesto,
no olhar,
no paladar das receitas de família,
nos cheiros e sons que guarda uma casa,
onde algum dia também ela me reencontrará
para descobrir que a amei
e que nela me refiz,
feliz ,
aprendiz de imortalidade.

ju rigoni (Para Zora, minha neta muito amada.)

      
  
Arquivo pessoal (Natal de 2001, quando ainda éramos cinco)