domingo

Sêmen


Há muitas vidas
em seus pensamentos…
Fluídos que extrapolam
o volume do vidro.
Caneta ao alcance,
destila destinos…
E o papel companheiro
é abrigo, é porto,
é umbigo… e cordão.

Enquanto escreve
mais vida tem…
Mais vidas lhe vêm…

Ao reunir pensamentos,
em prosa ou em verso,
sentidos em alerta,
no prazer do espasmo
outra vez semeia
o espargir congesto…
O útero estranho aquiesce
à perene prenhez..
E cresce,… cresce,… cresce…

À insônia serve
o criado-(nem tão)mudo…
Livros, relógio, água, aspirinas,
caneta, papel…

O amanhã transborda
do presente passado…
Mais e mais histórias
paridas pelas histórias
das histórias recém-nascidas.

Amanhece…
Ainda desperto,
ele escreve… escreve… escreve…

ju rigoni (2006)


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Jejum

.
.

À frente o papel em branco:
olhamo-nos, medimo-nos...
Estranhamo-nos.

Tenho fome de palavras...
Mas elas não me vêm.
Significantes e significados se foram,
como o filho ingrato que se evadiu
e à casa não torna.
Por que?, eu me pergunto.

(...)

Por que tantas vezes
fogem de mim as palavras?
Que fiz eu?...

ju rigoni (1979)


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O Todo em Parte



Não se é sempre a mesma pessoa...
Contradizer-se, natureza do ser humano, -
nasceu para reagir aos sentimentos...
Ele é o que cada momento lhe reserva...

Não há nada mais controverso
que o homem contemporâneo...
Mal aprende a andar, falar, pensar,
e declara guerra a si mesmo...

Nasceu para enfrentar
a poderosa força do não;
tentar, tentar e tentar...
Escorregar, cair, levantar;
esperar...
Retroceder para avançar.

Mirar e atingir
o alvo...
para estar a salvo
de si mesmo.

ju rigoni (2001)

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Grau



.
.
Se a vista já não nos alcança


salva-nos a imaginação...



Lá dentro,


tudo é possível...



ju rigoni (2000)



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Algum Bálsamo




Debruçada à janela,
ouço a conversa da passarada, -
o alerta do bem-te-vi,
a pirraça do quero-quero...

Sem controle-remoto,
assisto ao divino
e colorido programa, -
alguma festa
para os meus olhos cansados...

Pequenos grandes agrados
da natureza...
Criaturinhas frágeis, indefesas, -
de descomunal beleza.

Procuram o que lhes sobra...
Pequenas ilhas de verde
no mar de cimento e telhados
que, desordenadamente, ocupam
o lugar onde, no passado,
só havia árvores,
flores, frutos,... ninhos.

Lá, um pouco mais distante,
à beira da lagoa,
estão as garças
e suas pernas fininhas.
Imóveis, aparentemente distraídas,
como a esperar um salvador, -
alguém que lhes devolva
orla e águas despoluídas...

Subitamente, levantam vôo;
ganham altura incomum...

De lá, do alto,
podem ver o predador
no tamanho que merece...

ju rigoni (2001)

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Luz!

.
.
Pensou então em morrer...
Não uma morte qualquer, -
uma partida espetaculosa!

Finalmente as telas,
as ansiadas janelas,
uma cor forte, intensa, -
alguma prosa no escuro
das suas páginas em branco...

E conseguiu a proeza, -
ainda que à derradeira hora -,
de ser celebridade,
(gênero de primeira necessidade?) ,
natureza imposta ao novo homem,
a extinguir extinguindo-se
na ânsia de exibir-se...

Ah, que mundo é esse?!...

ju rigoni (2008)


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Corais



Um poema tem cordas,
metais, madeiras,
percussão, teclas...
Vozes...

Música!

De frente para os versos,
as almas saltam aos sentidos...
Apossam-se da batuta,
e em gestos alongados ou breves,
regem-nos, como se fossem seus.

Multiplicam-se as partituras...
e eis que o poema é mais, -
criador e criatura.

O poeta que o escreveu,...
bem,... ainda está lá,...
em meio à platéia atenta...

No subir e cair do pano,
entre aplausos e vaias,...
a surpresa é estribilho:
tantos eus tem o meu filho!...

ju rigoni (2008)


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sábado

Plataforma

.
.
Amanhã, depois de acordar, -

se acordar;

quando a ressaca passar, -

se passar -,

há de se levantar uma tal ju rigoni,

que me fará esquecer m’eu nome

e talvez, - quem sabe?... -, voltar a escrever...


ju rigoni (sem registro de data)


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domingo

Sem Dono

.
.
Eu passarei,
porque o tempo
há de me ultrapassar...

E tudo que acredito meu,
como eu,
nada mais será...

ju rigoni (2000)


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Café da Manhã




Torceu o nariz para as palavras

que escorriam em sal aguado

afogando o azul desbotado

do bordado da toalha...


Aqui e ali, o remendo das migalhas

do pão dos dias outrora dormidos,

e agora desacordados...


ju rigoni (2005)


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