domingo

Corais



Um poema tem cordas,
metais, madeiras,
percussão, teclas...
Vozes...

Música!

De frente para os versos,
as almas saltam aos sentidos...
Apossam-se da batuta,
e em gestos alongados ou breves,
regem-nos, como se fossem seus.

Multiplicam-se as partituras...
e eis que o poema é mais, -
criador e criatura.

O poeta que o escreveu,...
bem,... ainda está lá,...
em meio à platéia atenta...

No subir e cair do pano,
entre aplausos e vaias,...
a surpresa é estribilho:
tantos eus tem o meu filho!...

ju rigoni (2008)


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sábado

Plataforma

.
.
Amanhã, depois de acordar, -

se acordar;

quando a ressaca passar, -

se passar -,

há de se levantar uma tal ju rigoni,

que me fará esquecer m’eu nome

e talvez, - quem sabe?... -, voltar a escrever...


ju rigoni (sem registro de data)


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, Dormentes, Medo de Avião.

domingo

Sem Dono

.
.
Eu passarei,
porque o tempo
há de me ultrapassar...

E tudo que acredito meu,
como eu,
nada mais será...

ju rigoni (2000)


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Café da Manhã




Torceu o nariz para as palavras

que escorriam em sal aguado

afogando o azul desbotado

do bordado da toalha...


Aqui e ali, o remendo das migalhas

do pão dos dias outrora dormidos,

e agora desacordados...


ju rigoni (2005)


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Sem Ação

.
.
Sorria!
Mexa os músculos da face,
Disfarce o seu mau-humor.
Em nome da segurança,
dê adeus à privacidade,
e contenha a indignação.

Você está sendo invadido,
Você está sendo filmado, -
não há o que você faça
que já não seja sabido;
que há muito não esteja gravado...

ju rigoni (2008)


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Verticais

.
.

Palavras vestidas num pretinho básico,
que não destaca os excessos
das curvas perigosas.
Palavras em cima do salto quebrado;
em plano que ninguém vê...
Palavras de perfume inebriante, sedutor...
Palavras d e l i c i o s a s!

Maquiagem importada...
batom cor-de-rosa, -
a amenizar o negro da sombra
que aprofunda o olhar.

Ah, que esplêndido gozo,
não fossem apenas pobres palavras pobres
cheias de corpo e vazias de alma...
perdidas na névoa do horário nobre...

ju rigoni (2002)


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Lixo

.

Nada lhe escapa...

Tubarões, enguias, sardinhas,
peixinhos ornamentais,
arraias, estrelas, baleias,
polvos, camarões, golfinhos,...

Sacos plásticos, latinhas,
seringas, camisinhas usadas,
embarcações naufragadas,
armas, drogas, defuntos,
mensagens engarrafadas,

Nem o mar dentro do mar...

Pesca tudo, tudo, tudo...
nada escapa à sua rede...

Nem ele,
pescador pescado.

ju rigoni (1998)


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... No Bico.

.

É um amor de fibra!
Ramos, arbustos,
palha, folhas...

Amor de visgo!...
Vez em quando musgo,
quando em vez, barro,
resina...

Amor cheio de penas...

ju rigoni (1998)


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Partos

.
.
A língua me unta,
besunta...
E
s
c
o
r
r
e
g
o
para dentro...

Frenético,
prazeroso,
incontrolável movimento
em direção ao ponto final
que dá à luz o recomeço...

ju rigoni (1997)


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Bicho Papão

.
.
Criança,
não repita o que eu digo!
Jamais faça o que eu fiz ou faço.
Não queira saber o que vi ou vivi...
Tire os seus olhos daqui!
Não é hora de ler o que escrevi.

Acredite,...
há um tempo para cada palavra...

ju rigoni (2007)


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