terça-feira

Oásis



O leitor me escreve,
e a sua mensagem, -
como num passe de mágica -,
me rejuvenesce.

Descreve-me em suas linhas
sem conhecer as linhas
a erodir-me o rosto.

Ah, que desgosto
teria esse leitor
se pudesse me ver
como eu realmente sou...

O espelho que ele envia
me reflete em novo ânimo.
Palavras sem rugas,
sem artrite, sem hipotermia...
sem pânico!

De repente,
de urtiga a flor bela e delicada,
desabrochando no canteiro
da imaginação de um leitor,
que me acredita ainda a mulher
que ele vê na fotografia antiga...

Ah, eu adoro esse leitor,
que se declara apaixonado
por uma imagem do passado,
e nem imagina o milagre
que suas palavras
operam em mim...

Ao abrir a caixa de correio
para ler as novas mensagens,
não resisto!...
Abro o arquivo, -
leio e releio,
entre incrédula e encantada,
suas tão sedutoras miragens...

Blogar tem, sim,
algumas vantagens...
rsrs

ju rigoni (2007)

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sábado

Fatal



Distancio-me dos teus olhos,
faróis a lançar luz
no meu mar de segredos...
Sobre eles, não ouso me debruçar...

Dois círculos mágicos,
duas lindas mandalas,
que alumiam o que eu sei
mas não quero revelar...
Ui! Que olhos!...

...de mergulhar fundo...
de amolecer pedra,
de encrespar o mar,
de enfeitiçar o mundo...

Duas lindas luas
a brilhar num rosto
que é noite de mistério
e sonho...

Procuro um abrigo, -
qualquer coisa
que me livre do perigo
de um mergulho mais fundo
no castanho do seu olhar...

ju rigoni (2002)


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quinta-feira

Espinhos...



Feriu-se
ao tentar colher a flor...
Não é fácil colher flores...
Não é.

Tudo que há para colher
encolhe-se em espinhos...

Ninguém nasce pronto
para ser colhido,
mas para recolher-se...


ju rigoni (2002)

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domingo

Atrevimento



Que coisa descabida!...

Que direito tem a natureza
de interferir, assim,
em minha tristeza,
exibindo
sem qualquer pudor,
tanta tranquilidade
e beleza?!

ju rigoni (1998)


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sexta-feira

Conselho?




Não!
Não é preciso ser tão coerente...
Você é gente!
Só acerta depois de errar,

É seguir na contramão,
sem sinalização,
sem buzina,
andando de ré...

Só conhece de cor
a cor do sofrimento
quem corre atrás
da felicidade!

Quem,
para estar feliz,
paga o preço
de ser infeliz pelo avesso...

ju rigoni (Anos 80)


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terça-feira

Acento



Cedo ao desejo
e bem devagarzinho,
o gesto bem leve,
estendo-lhe o dedo.

Ele tremelica
no galho espinhento
e sem perda de tempo
ganha o azul.

Pancinha amarela,
voando ligeiro
ao encontro do par,
o bichinho inquieto
pousa no fio
que me liga ao mundo.

Eles cantam...
e seu canto dá conta
da minha vida...

ju rigoni (Anos 70)


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sábado

Babado


Avô e bisavô,
Antenor descobriu sem medo,
que é possível alcançar o mundo
com as pontas dos dedos.

E aperta-os, trêmulos,
contra o teclado
inocente,
alfabetizado
pela sua mente.

"Ave Maria!
Há noventa e cinco anos...
Quem diria?!..."

E lá vai ele
juntando letrinhas,
formando palavras,
frases, parágrafos,
e lembrando Pessoa:
"Navegar é preciso!"

- Quantas línguas, culturas,
cabem nessas teclas, Leninha!?
E esse mundo novo, avassalador,
assim, tão escancarado!?
É de circo essa geringonça
chamada computador!

Nem tevê,
nem revista masculina, -
vovô só quer saber do pc.

"Veja só essas certinhas!... "
Bom mesmo
é tirar casquinha
do pc da bisnetinha.

E a bisa,
um olho no tricô,
o outro no bisavô,
cheia de ciúmes...
- Levanta daí, Antenor!
Chega de conversa fiada,
para de botar banca
na "olivetti" envenenada.
Mexa-se, estrupício!
Faça algum exercício!...

E ainda que não fosse surdo,
vovô não a ouviria,
tal é a sua paixão
pela nova companhia.

Viajando, lá vai ele!...
Os olhos apertadinhos
para enxergar o teclado
e o mundo abilolado,
que desfila na telinha.

Vovó a tecer sentimentos,
Vovô a teclar pensamentos,
a correr atrás do tempo
para incluir-se,
viver...
no futuro possível.

- Estou lincado
com o o mundo;
Leninha, eu renasci!
E vovó sem entender bulhufas:
- Homessa! Que abacaxi!...


ju rigoni

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terça-feira

Sina


Dividida,

assim... subtraída
ao multiplicar-me na lida,
só vejo luz no sinal
que mais parece uma cruz...


ju rigoni (1983)

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domingo

Perfume de Mulher


No aerobarco, Helga sentou-se à janela. Ao seu lado havia dois lugares vagos.
O da ponta estava sendo ocupado por um senhor alto, de cabelos grisalhos, mas nem bem sentou-se e uma mulher que parecia ter uns trinta anos, - saltos altos, blazer sobre camiseta e jeans -, apontou-lhe o assento do meio. O homem poderia ter passado para a cadeira ao lado de Helga, mas preferiu levantar-se e esperar que a desconhecida lá se acomodasse para sentar-se no lugar originalmente escolhido.

Tudo não passaria de uma cena absolutamente comum naquela sexta-feira não fosse o perfume fortíssimo que exalava da tal passageira. Helga tentou distrair-se com a paisagem mas, droga!, esquecera e sentara-se no lado oposto àquele em que as janelas da embarcação servem de moldura para o Pão de Açúcar, o Corcovado, o Aeroporto Santos Dumont, a Escola Naval... O jeito era contentar-se com a visão da ponte Rio-Niterói.

O aerobarco já estava a meio caminho do ancoradouro da Praça XV, navegando na altura do vão central da Ponte, quando Helga percebeu que alguma coisa não ia bem com sua cabeça, seu estômago, o ritmo de sua respiração...Disfarçou e apertou o nariz procurando respirar pela boca para tentar neutralizar a terrível reação que o perfume da tal mulher, sentada ao seu lado, estava lhe causando. 

Mas só piorou. 

Quando olhou pela janela novamente viu a histórica Ilha Fiscal começando a apontar na paisagem, que agora estava cheia de minúsculos pontinhos pretos que iam se fechando gradativamente... De repente, a escuridão...

O mal-estar de Helga não passou despercebido, e foi a estranha do perfume quem deu o alarme:

- Acho que a moça aqui desmaiou...

Segurou-lhe a bolsa, a pasta de documentos, e passou um braço ao redor de sua cabeça, acreditando que isso lhe traria algum conforto. Helga, - coitada! -, não poderia recobrar os sentidos. Sua glote estava se fechando cada vez mais por conta daquela "inofensiva" fragrância.

Quando o barco atracou, o passageiro sentado na extremidade prontificou-se a desembarcá-la, levando-a em seu colo. A mulher, então, entregou os pertences de Helga ao comandante e foi embora.

Lá fora, a brisa marinha permitiu que Helga, pouco a pouco, voltasse a si. Uma médica, surgida de não se sabe onde, parou para tomar conhecimento do que estava acontecendo e prestar socorro.

- Está se sentindo melhor? O que houve?
- Ainda não sei muito bem... Isto nunca aconteceu comigo! Acho que foi por causa do perfume de uma mulher que sentou-se ao meu lado...
- Pode ser... Você tem algum tipo de alergia?
- Não que eu saiba...
- Conte-me o que aconteceu.
- Eu senti aquele cheiro forte de perfume e fiquei zonza... Minha cabeça começou a rodar e a doer. E tive fortes náuseas. De repente, senti como se alguma coisa me fechasse a garganta e não vi mais nada.
- Olha, eu a aconselho a procurar o seu médico. Acredito que você tenha desenvolvido uma alergia a perfumes, ou a algum de seus componentes. Para uma primeira reação acho que foi muito violenta. Eu diria que você teve sorte. Mais algum tempo junto da tal passageira e as conseqüências poderiam ter sido muito mais sérias.
- O que você quer dizer com "muito mais sérias"?...
- Alguns casos, por causa da ação sobre a epiglote, terminam em óbito.

Assustada com a revelação, e ainda meio tonta, mas já de pé, Helga pegou a bolsa e a pasta e tomou o caminho do trabalho prometendo a si mesma nunca mais sentar-se à janela de qualquer meio de transporte, a não ser que estivesse com algum conhecido.

Atravessou o Paço Imperial e entrou pela Avenida Sete de Setembro procurando manter o máximo de distância possível de qualquer pessoa. À noite, ao telefone, depois de me contar o ocorrido, disse que estava com falta de ar porque, apavorada, passara o dia prendendo a respiração toda vez que alguém se aproximava.

Alguns dias depois seu médico confirmou a reação alégica a um certo fixador utilizado na fabricação de perfumes franceses.

Uu-lah-lah?

ju rigoni (sem registro de data)


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sexta-feira

Sutilezas do Poder II


O homem não estava bêbado, mas trêbado. E como tal fazia muito bom uso da situação. Chegou sozinho ao bar por volta das 19 horas. Estava de cara limpíssima. Alto, porte atlético, bem vestido, pediu uma cerveja. Depois outra. E mais outra... E outra...

Ninguém que o tenha visto chegar o reconheceria agora. Mal conseguia manter-se sentado. As bochechas vermelhas e inchadas, os braços estirados ao longo do corpo, - toda vez que se levantava para ir ao banheiro era aquele passinho incerto e o óbvio balança-mas-não-cai. Quando falava, exibia a dislexia característica do alcoólatra, - z em lugar do s, d ao invés de t, enfim, aquele misto de voz pastosa com língua que já não encontra seu lugar dentro da boca.


- Draz oudro jopp, gombanhêrum!

Vez em quando dava de cantar:

- Dorneeeeeeeeeeeeei-me um évrio/na vevida vusgo ez(i)quezer/aguela ingraaaaaada que me amava e que me avandonou...

- Cala a boca aí, ô pudim de cachaça!

- Vá cantar em outra freguesia, bebum!

Os protestos vinham de várias mesas.

- Uuus ingomodados gui zi mudem!

- Pára de beber, ô chato inflamável!

- Eeeeu vevo zim/Esdou vifeeeendo/dem zente gue naum veve esdá morreeendo, eu vevo zim...

- Vai morrer em casa, ô pé-de cana!

E assim a noite foi passando. O homem bebendo, indo e voltando trôpego do banheiro, e
desfiando o repertório que lhe vinha à mente avariada pelo álcool até que, de repente, entra no bar um grupo de funcionários que trabalhavam na empresa do tal bebum.

- Caraca! Olha o estado em que se encontra o dr. Inácio! - aponta um deles.

Neste momento, o bêbado estava todo retorcido na cadeira, um lado do rosto "mergulhado" numa travessa contendo restos de aipim frito. Os companheiros, penalizados, aproximam-se e sentam-se à mesa onde "jaz" Inácio. Este imediatamente levanta-se, torto como ele só.

- Oiiiiiiii, bezoal! Agora vai vigar melhor. Iiizo meschmo! Zentem agui gomigo...

Alberto está desolado com as condições do chefe.

- O que é que está acontecendo com o senhor, dr.Inácio? Por que é que bebeu tanto?...

- Iiiiih! Zá vou me arrebender de der gonvidado vozês bra zentar...

E o Toni:

- Não quer que eu peça um café bem forte?

- Ô gara! Já jega o gafé gue a gente doma lá naquela borra de esgridório... Garzon! Draz jopp agui bra rabaziada! Dudo bor minha gonda...

E a Lena, noiva do Toni, preocupadíssima.

- Dr.Inácio, o senhor bebeu à-beça e não se alimentou direito ainda. Não seria bom comer alguma coisa?

Inácio, a cara já inchada, olhos vermelhos a meio palmo, aquele sorrizinho sacana de canto de boca:

- Zó ze vor bra gomer vozê, dozinho, - he-he...

- RESPEITO COM A MINHA NOIVA, HEIN!!! O fato do senhor estar bêbado e ser nosso superior no trabalho não lhe dá o direito de extrapolar. Não vem que não tem! O senhor não está assim tão inconsciente. E se estiver, posso refrescar sua memória com uma porrada.

A turma do deixa-disso logo interfere.

- Deixa pra lá, Toni! Não vê que ele não está aguentando nem com ele?... O vento da
porrada já seria suficiente para derrubar o homem!

- Calma, meu bem! - Lena tenta amenizar - ele está muito ruinzinho...

Enquanto isso, Inácio já está tropeçando nas pernas para alcançar novamente o banheiro. Vai passando por entre as mesas, apoiando-se no espaldar de uma cadeira aqui, outra ali, sob os protestos de seus ocupantes, - vez em quando mete involuntariamente o cotovelo na cabeça de alguém sentado.

- Gueeeira me desgulbar...

Quando retorna à mesa os ânimos já foram contidos. Todos têm uma tulipa ou um caneco cheio de chopp diante de si. Mas em frente ao lugar de Inácio está uma chícara de café fumegando.

- Guem voi gue bediu eza meeerda? Voi vozê, dozinho?

- DOCINHO É A MÃE! Vamos cessar as intimidades com a minha noiva...

Pronto! Começa tudo de novo. E a noite, que era para ser agradável e relaxante, gira em torno do porre de Inácio que, sem a censura do consciente, vira-e-mexe arranja uma confusão.

Hora de ir embora, o trêbado ressonando, agora com a cara enfiada num prato com restos mortais de um frango à passarinho, precisa da ajuda dos amigos e garçons para ser levado até um rádio-táxi. De posse do endereço, o motorista despeja o ébrio aos pés do porteiro do edifício onde mora.

Dia seguinte, Inácio muito sério, a elegância habitual, abre a porta do escritório que dá para as mesas de trabalho dos companheiros de noitada.

- Bom dia a todos! - E como se nada tivesse acontecido:

- Reunião às onze! Quero todos os relatórios prontos. Não vou admitir atrasos ainda que me apresentem justificativas, ouviram bem? E por favor falem baixo que, estranhamente, hoje acordei com muita dor de cabeça...

ju rigoni


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